A falta de uma reação mais rígida por parte do Brasil contra o protecionismo argentino vem exacerbando as críticas do setor sucroalcoleiro contra o governo federal. ‘‘O País cedeu mais uma vez, apesar de ter anunciado, recentemente, que isso não ocorreria mais’’, disse o presidente da Sociedade Rural Brasileira, Luis Hafers, em reação à prorrogação argentina, por mais cinco anos, da taxa de 20% na importação do açúcar brasileiro.
‘‘O pior amigo do protecionismo é o próprio protetor’’, criticou Hafers, acusando o governo de não ter, até agora, emitido sinais claros de que reagirá duramente contra a decisão argentina de excluir, mais uma vez, o açúcar do Mercosul. Esta semana, a Argentina deve propor a liberação do mercado de açúcar somente a partir de 1º de janeiro de 2007. Isto é, sete anos depois do último prazo dado aos usineiros argentinos para se adaptarem ao livre mercado e 15 anos depois de ter sido assinado o Tratado de Ouro Preto, que determinava o fim dos regimes especiais para certos setores produtivos em dezembro de 1999.
Para Júlio Maria Borges, consultor da JOB Consultoria, o protecionismo argentino contra o açúcar passou a ser mais um problema para os avanços do livre comércio no Mercosul. ‘‘Ou se aceita a integração em todos os setores ou o bloco terá sérios problemas para ser efetivado’’, afirmou Borges. O Itamaraty se defende com o argumento de que a solução para esse produto não é fácil e que os usineiros não podem ter uma visão de curto prazo para essa questão.
‘‘O assunto tem uma certa complexidade formal e substantiva’’, disse na semana passada o embaixador Botafogo Gonçalves durante uma entrevista convocada às pressas no Itamaraty para tentar explicar a decisão argentina de manter a taxação de 20% sobre o produto brasileiro. O embaixador explicou que o protecionismo argentino na área de açúcar vem sendo respaldado por três setores bastante fortes. Um, disse ele, é o Centro Açucareiro Argentino, que exerce um lobby poderosíssimo que busca preservar os interesses dos usineiros do País.
Outra força é o Congresso argentino, sensível, como em qualquer lugar do mundo, aos lobbies dos setores que pedem proteção. O embaixador citou o governo argentino como o terceiro empecilho para a solução do problema.
O Itamaraty, dizem os produtores brasileiros, quer incluir o açúcar no Mercosul e só depois iniciar negociações para reduzir a tarifa de importação. Mas, aparentemente, nem mesmo essa estratégia vem dando certo, já que a Argentina quer esticar a liberação do mercado desse produto para 2007.

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