Governo e bancos divergem sobre Recoop
Vânia Casado
De Curitiba
Representantes do Governo Federal e do Banco do Brasil foram confrontados ontem, em Curitiba, para justificar o atraso na implementação do Recoop (Programa de Revitalização das Cooperativas). Apesar das promessas e garantias que os primeiros contratos poderão ser assinados até o final do ano, os presidentes de cooperativas revelaram ceticismo, porque a cada dia aumenta o número de exigências burocráticas por parte do Banco do Brasil e bancos privados.
Os presidentes de cooperativas desafiaram o governo federal e deram um prazo até a semana que vem para que governo e bancos acertem as pendências. Se isso não ocorrer, a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) e a Frente Parlamentar do Cooperativismo (Frencoop) vão promover uma ampla mobilização em Brasília, nos moldes das mobilizações já realizadas pelos ruralistas. Os cooperativistas vão forçar um encontro com o presidente Fernando Henrique Cardoso para revelar onde o Recoop está emperrando.
Para tentar solucionar isso de vez, o presidente da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), João Paulo Kosloviski, reuniu o assessor especial do Ministério da Fazenda e coordenaro do Recoop, José Gerardo Fontelle, o diretor do Tesouro Nacional, Antonio Carlos Argôlo, o gerente executivo da área rural do Banco do Brasil, José Branisso, o presidente da Organização das Cooperativas de Minas Gerais, Alfeu Silva Mendes e o deputado federal, Moacir Micheletto (PMDB-PR).
A ansiedade dos cooperativistas está aumentando porque o prazo limite para que os bancos liberem os recursos para as cooperativas, que tiveram seus projetos aprovados, se esgota no final do ano e até agora nenhuma delas foi chamada pelos bancos para negociarem seus contratos. Entre o anúncio do programa, feito pelo presidente, até agora já se passaram três anos e nenhuma delas foi beneficiada com a renegociação de suas dívidas, o que tem provocado a indignação dos presidentes de cooperativas.
Fontelle acusa os bancos de excesso de burocracia e morosidade na condução do programa. Argôlo, do Tesouro Nacional, disse que os recursos previstos para o Recoop de R$ 2,1 bilhões estão garantidos e inseridos no orçamento do Tesouro para o ano de 1999 e 2.000. E mais, Fontelle garantiu que dinheiro não é problema e que o Recoop não foi atingido pelo programa de ajuste fiscal. Branisso, do BB, por sua vez, argumenta que os contratos serão analisados caso a caso, para minimizar o risco dos bancos. O Banco do Brasil concentra 60% das operações do Recoop e o restante, fica sob a responsabilidade dos bancos privados.
Segundo Fontele, dos 232 projetos de cooperativas aprovados pelo Recoop, 30 já foram analisados pelo BB e estão prontos para serem implementados. Desses 30 projetos, seis ou sete referem-se a projetos de cooperativas paranaenses, informou Kosloviski. Até o final do ano, mais 40 projetos devem ser analisados, o que não atende as expectativas das cooperativas, que estão preocupadas com o fim da data-limite, embora Fontelle tenha argumentado que o governo não vê nenhum problema em prorrogar essa data. Nos cálculos de Fontelle, os bancos privados devem analisar entre 90 a 100 projetos.
O deputado Michelleto ficou indignado com o confronto. Para ele, não é possível que de 300 cooperativas de produção existentes no país, apenas 30 estão aptas para ser beneficiadas pelo Recoop. Ele salientou que se o programa foi anunciado pelo presidente da república, o Tesouro da União garante os recursos, por que os bancos não querem assumir o risco? perguntou. Ainda mais, que eles terão um spread de 3% nas operações. Mesmo assim, querem excesso de garantias, para que? Para inviabilizar o Recoop, reagiu.
As dívidas das cooperativas paranaenses somam R$ 800 milhões, sendo que a maior parte refere-se ao alongamento de dívidas de cinco para até 15 anos. Desse total, R$ 250 milhões deverão ser destinados a novos investimentos, R$ 100 milhões para cobrir as dívidas recebíveis dos cooperados e mais R$ 50 milhões para capital de giro.





