Governo deve liberar até 35% do saldo das contas ativas do FGTS
Segundo o presidente Jair Bolsonaro, anúncio deve ocorrer esta semana; valor do saque vai depender da renda do trabalhador
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de julho de 2019
Segundo o presidente Jair Bolsonaro, anúncio deve ocorrer esta semana; valor do saque vai depender da renda do trabalhador
Mie Francine Chiba - Grupo Folha 

O governo anunciará ainda nesta semana as regras para a liberação do dinheiro das contas ativas do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) e do PIS/Pasep. A afirmação foi feita pelo presidente Jair Bolsonaro, nesta quarta-feira (17). Segundo o ministro Paulo Guedes (Economia), até 35% do valor depositado pelo empregador atual poderá ser retirado das contas. O percentual dependerá da renda do trabalhador e os recursos poderão ser sacados no mês de aniversário dos que tiverem o benefício disponível.
O presidente frisou que isso representaria "uma pequena injeção na economia" e ressaltou que a atividade já começa a dar sinais de recuperação, "pelos sinais positivos (no geral) e em especial também pelos sinais que estão vindo do Parlamento".
Atualmente, o dinheiro das contas ativas tem uso limitado, sendo o principal destino o financiamento da casa própria. A expectativa é que a medida libere R$ 42 bilhões para os trabalhadores. Além disso, devem ser liberados outros R$ 21 bilhões dos recursos do Pis/Pasep. "A tendência é esta", disse Guedes na Argentina, onde participa da 54ª Cúpula do Mercosul.
Segundo fontes a par do assunto, que participaram na última terça-feira (16) de reunião no Ministério da Economia, uma das ideias é autorizar os saques na seguinte proporção: quem tem até R$ 5 mil no fundo poderia sacar 35% do saldo e trabalhadores com até R$ 10 mil, 30%. Ainda se discutia qual parcela terá direito quem tem entre R$ 10 mil e R$ 50 mil no FGTS. Acima de R$ 50 mil, o trabalhador só poderia sacar 10% do saldo.
O plano de liberar recursos das contas ativas do FGTS vem sendo discutido há meses pelo governo, que busca medidas de estímulo à economia do país. Guedes vinha dizendo, porém, que só faria anúncios de novas medidas econômicas após a aprovação da reforma da Previdência. Do contrário, estímulos serviriam apenas para "voos de galinha" da economia.
O economista e colunista da FOLHA, Marcos Rambalducci, avalia que a medida é de curtíssimo prazo e não tem capacidade de fazer a economia engrenar. Além disso, terá alcance limitado. “Nem todo mundo tem FGTS e boa parte dos endividados são idosos", lembra ele. Mas é importante para ativar a demanda, principalmente no varejo. Para ele, o trabalhador provavelmente vai utilizar o recurso para duas finalidades: para pagar dívidas e para consumir.
“Estamos com o consumidor muito endividado, batendo recordes de inadimplência”, diz Rambalducci. O recurso do FGTS, segundo ele, deverá ajudar esse consumidor a quitar suas dívidas e a liberar o nome para assumir novos créditos, fazendo o dinheiro fluir na economia. Outra parte vai para o consumo, analisa o economista. O dinheiro não será utilizado para a compra de produtos de maior valor agregado, mas mesmo assim deverá atingir positivamente o varejo.
Nem todo mundo que tem conta ativa do FGTS comemora a medida. Mesmo com valor disponível para saque, o assistente administrativo de produção Everton Francisco diz que não vai fazer a retirada do valor. “Não estamos com um governo estável, não sinto confiança. Se tiver uma crise, parte do dinheiro não vai mais estar lá.” Já a recepcionista Juliana Elias afirma que sacaria o valor agora mesmo, se pudesse. A finalidade: pagar contas. Com a chegada próxima de um bebê, o recurso também viria em boa hora para a compra do enxoval.
De toda maneira, o economista Marcos Rambalducci recomenda a quem tem FGTS ativo sacar o valor, esteja endividado ou não. No entanto, o uso a ser feito do recurso precisa ser consciente. “Para aqueles que vão sacar para o consumo, é preciso tomar muito cuidado porque vão estar tirando de uma segurança que tem para situações adversas. Tem que tomar cuidado para que o dinheiro seja bem direcionado.”
Mesmo quem não tem dívidas e não pretende usar o dinheiro para consumo deve sacar o recurso e colocar em algum tipo de aplicação, como o Tesouro Direto, que o rendimento será mais compensatório.
Contas inativas
O recurso ao dinheiro do FGTS para tentar estimular o consumo foi usado durante o governo de Michel Temer (MDB). À época, trabalhadores puderam sacar recursos das contas inativas do FGTS. Essas contas eram referentes a empregos anteriores dos quais os empregados pediram demissão. Assim, o dinheiro permanecia retido. Com essa medida, foram liberados, à época, R$ 44 bilhões. (Com agências)
SAQUE DO FGTS TERÁ MELHOR CONTEXTO ECONÔMICO QUE EM 2017, DIZ EXECUTIVO
A liberação parcial de saques das contas ativas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) estudada pelo Ministério da Economia, se concretizada, será feita num contexto melhor que em 2017, na opinião do presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC), Eduardo Terra. O estímulo, segundo Terra, não deve dobrar o Produto Interno Bruto (PIB), mas pode melhorar o crescimento.
"Seria o remédio certo na hora certa", afirmou. Para Terra, o problema dos recursos liberados das contas inativas do FGTS em 2017 é que não houve uma sequência de estímulos. Naquele ano, foram resgatados R$ 44 bilhões e o PIB encerrou em alta de 1,0%.
Por enquanto, o governo tem feito contínuas revisões para baixo sobre o crescimento da economia neste ano, com a última delas indicando uma alta de 0,81% do PIB. Segundo Terra, os saques do FGTS devem dar tração à economia, já que o pacote de reformas, na sua opinião, cria um ambiente favorável. Ele ressalta, porém, que, passada mais da metade do ano, a meta do governo deve ser colocar a economia em ritmo de crescimento acelerado para 2020. (Agência Estado)


