São Paulo - O governo federal desistiu da idéia de acabar com os acampamentos de sem-terra espalhados pelo País. Parou de cadastrar acampados e, embora mantenha boas relações com o Movimento dos Sem-Terra (MST), abandona aos poucos a idéia de que seus grupos têm prioridade na fila de espera dos assentamentos.
A mudança está ligada a duas constatações. A primeira é que a organização de acampamentos é uma forma de luta do MST. Eles chamam a atenção pública para a reforma agrária e ajudam a pressionar o governo. Por mais que se assentem os sem-terra do movimento, mais seus líderes arregimentam outros. Se fosse atendê-los exatamente nos moldes que reivindicam, o governo estaria agindo como se enxugasse gelo.
A segunda constatação seria a propaganda positiva da reforma. À medida que se assentam famílias pobres e originárias da periferia das cidades, outras se candidatam a um lote. Segundo o presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Rolf Hackbart, erra quem acredita que o aumento do número de assentamentos leva à diminuição automática do número de pretendentes. ''É o contrário'', diz ele. ''À medida que se criam condições para as famílias viverem bem na zona rural, outras vão querer.''
Inchaço - É uma política diferente daquela do início do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Uma das primeiras providências de Marcelo Rezende, o antecessor de Hackbart na presidência do Incra, foi anunciar o recenseamento e o cadastramento de famílias acampadas. Ganhou corpo a idéia de que todas seriam assentadas. A consequência imediata foi o inchaço dos acampamentos. Quando o governo parou de contar, já eram 171 mil famílias acampadas quase 850 mil pessoas. O número das inscritas diretamente no Incra pela internet ou pelos correios é ainda maior.
A mudança de atitude do governo também pode estar relacionada à constatação de que a reforma avança num ritmo mais lento do que o PT acreditava quando estava na oposição. Hackbart, que assessorava o núcleo agrário do partido no Congresso, admite, um ano após assumir o cargo, que não imaginava que os processos andassem tão vagarosamente.
''Não é simples fazer a reforma'', diz. ''Não imaginava que a capacidade operacional do Estado fosse tão baixa. Mas não é só. A transferência de propriedades não pode ser a toque de caixa, atropelando a legislação. O Judiciário tem ajudado muito, mas existem os ritos legais, que devem ser observados, para que se mantenha a justiça, o direito, o Estado democrático.''
Longe da meta - Foram assentadas neste ano 33.309 famílias, de acordo com um levantamento do Incra no dia 20 de agosto. É um número maior do que as 24.991 assentadas no mesmo período do ano passado. Mas está longe da meta de 115 mil famílias previstas para este ano no Plano Nacional de Reforma Agrária.
Hackbart assegura que a meta está mantida, assim como o propósito de assentar 400 mil famílias até o fim do governo Lula. Logo em seguida, porém, acrescenta o comentário: ''O número é uma referência. Para nós, mais importante do que a quantidade é a qualidade''.
O presidente do Incra costuma dizer que cada família assentada é uma vitória. Para ele, desenvolvimento econômico implica necessariamente a desconcentração da riqueza, da renda e do poder. Leia-se, desconcentração da terra. Mas ele também diz que a vitória maior é o assentamento bem-sucedido economicamente.
Muitos não são, segundo Hackbart, por falta de organização. ''Nem tudo na reforma agrária é falta de recurso'', diz. ''Muitos problemas ocorrem porque os recursos não são bem aplicados. É preciso organizar melhor a produção.''
Ele afirma que boa parte dos 5 mil assentamentos do País enfrenta problemas com a falta de infra-estrutura e de assistência. ''As famílias que foram jogadas nos lotes e esquecidas lá.''
Produção - Por outro lado, viceja entre grupos de assentados a idéia de que como são pobres cabe exclusivamente ao governo a tarefa de resolver seus problemas. ''Estive há pouco num assentamento, com 528 famílias, e falei duro com eles. Disse que damos todo apoio, mas, se não houver organização na produção, não vamos jogar dinheiro fora. Uma coisa é o atendimento de direitos básicos, como saúde, educação. Outra, a organização da produção, com a definição de questões básicas, como: produzir o quê? para qual mercado? com que retorno do investimento?''
Ele diz que o governo não pretende impor nada às famílias. Mas pretende usar de forma mais eficiente as políticas de crédito rural para estimular a organização da produção.
A orientação do Incra tem provocado críticas. O MST pôs em dúvida o número de famílias assentadas neste ano. Seus representantes observaram que os assentamentos não diminuíram.
Hackbart retrucou que boa parte das famílias foram assentadas em áreas retomadas pela instituição, devido a irregularidades tais como a venda e o arrendamento de lotes, proibidos por lei. Também disse que as listas do MST não são as únicas usadas na hora de definir quem vai ser assentado.

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