São Paulo Aparentemente vencida a batalha contra a inflação, a volta do investimento privado no País é considerado hoje o principal desafio da agenda do governo Lula. E tem ocupado lugar de destaque entre as preocupações da equipe econômica. Sinais disso não faltam. Na quinta-feira, por exemplo, a cúpula do governo (Palocci, Dirceu e Dulci) iniciou uma espécie de ''road show'' sobre o futuro da economia brasileira junto a empresários peso-pesados de diferentes setores da indústria nacional.
O objetivo, segundo apurou a Agência Estado, foi o de chamá-los a investir, dada a constatação admitida na própria reunião de que o setor público não tem recursos para fazê-lo. Nesse sentido, os membros do governo ouviram atentamente as sugestões dos empresários sobre quais os principais entraves à expansão dos investimentos privados no País. Outras reuniões semelhantes acontecerão até o final do ano. Ontem o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, fez o mesmo em cadeia nacional de rede e televisão, provavelmente com o intuito de atingir segmentos menos expressivos do setor empresarial.
Fonte graduada da equipe econômica ouvida pela AE conta ser visível que a preocupação com a inflação cedeu lugar à preocupação com o investimento. Chega a dizer que o temor em relação à inflação está hoje ''próxima de zero'' no seio do governo. ''Agora chegou a hora de nos preocuparmos com o investimento'', afirma a fonte.
Não é difícil entender tal preocupação. ''A falta de investimento é hoje a principal barreira para o crescimento sustentado a taxas mais elevadas no Brasil'', resume o economista Armando Castelar Pinheiro, do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea). Explica-se: embora exista uma margem grande de capacidade no setor produtivo a ser ocupada, o que garante espaço para crescimento a taxas elevadas no curto prazo, sem novos investimentos essa capacidade estará esgotada em algum momento - e aqui sobram discussões sobre quando isso acontecerá. É aí que o crescimento esbarraria nos tais gargalos, por exemplo no setor de infra-estrutura como energia elétrica ou transportes.
O que há de concreto no tema do investimento é que ele vem caindo no Brasil nestes últimos anos. E que é basicamente o setor exportador que vem sustentando o pouco que está sendo feito.
A taxa de formação bruta de capital fixo como proporção do Produto Interno Bruto (PIB), principal indicador do investimento, saiu da casa dos 20% para 18,5% no ano passado. Esperava-se alguma recuperação para este ano, mas a estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é de que encerre 2003 com uma taxa de 17,6% do PIB. ''Bem abaixo de uma padrão baixo desse indicador, portanto preocupante'', comenta o economista Eduardo Giannetti da Fonseca, que atribui o número a dois fatores principais: o fato de a recessão econômica ter sido mais longa e mais forte do que se imaginava.
Além disso, as incertezas regulatórias no setor de infra-estrutura, em sua opinião afetaram os investimentos de maneira geral. ''Tal incerteza fez com que os empresários de diversos setores ficassem receosos com o futuro, por exemplo com o risco de faltar energia elétrica'', explica Giannetti.
Somam-se a esses fatores inibidores do investimento a alta taxa de retorno dos investimentos no mercado financeiro, fruto dos juros elevados, e o próprio cansaço do empresariado brasileiro em relação ao padrão de arrancadas e freadas que tem caracterizado a economia brasileira nos últimos anos.

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