O governo mudou seu diagnóstico sobre a melhor forma de o Brasil enfrentar os efeitos negativos da crise argentina. Em vez de aguardar um desfecho para agir, como vinha sendo pensado anteriormente, a equipe econômica começou analisar ontem uma alternativa mais agressiva junto aos investidores – a de antecipar o anúncio de algumas medidas. Entre as várias opções em estudo estão um ajuste fiscal adicional e a prorrogação do acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
A possibilidade de criar um fato e sinalizar ao mercado que o governo brasileiro não se manterá passivo diante da indefinição da crise da Argentina foi discutida na reunião que o presidente Fernando Henrique Cardoso teve com os ministros da Fazenda, Pedro Malan, do Planejamento, Martus Tavares, e com o presidente do Banco Central, Armínio Fraga.
A equipe econômica apresentou ao presidente os vários instrumentos disponíveis para diminuir a pressão sobre o câmbio e, em consequência, a alta da inflação, cujas metas definidas pelo Banco Central estão ameaçadas pela alta do dólar frente o real.
Dentro das hipóteses em estudo, está a edição de um novo decreto orçamentário elevando em cerca de R$ 5 bilhões a meta de superávit primário (receitas menos despesas, exceto juros da dívida pública) deste ano, fixada em R$ 30,5 bilhões para o governo federal, incluindo as estatais. Também cogita-se a edição de uma medida provisória para elevar a meta de superávit primário estabelecida na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para 2002. O ajuste se daria mais pelo lado das receitas – beneficiadas com o melhor resultado da Petrobras – do que de cortes nos gastos previstos para este ano.
Está praticamente descartada a adoção agora de um aperto fiscal de grandes dimensões, o que somente teria justificativa no momento de desfecho da crise argentina. Um ajuste menor, entretanto, vem sendo considerado ideal para reduzir as pressões sobre o câmbio e, em consequência, sobre a taxa de inflação.
Vários dilemas estão norteando as discussões sobre qual a melhor resposta do Brasil neste momento de ‘‘morte lenta’’ da Argentina. Além do elevado custo político das medidas, ainda está sendo avaliado se a ênfase será no choque dos juros ou no aperto dos gastos. Outro complicador é o timing do anúncio das medidas.
Segundo uma fonte ligada ao gabinete do ministro da Fazenda, é preciso calibrar bem as decisões agora porque, no caso de a Argentina quebrar daqui algumas semanas, será inevitável adotar novas e mais duras providências.
O timing do anúncio das medidas que vão ajudar o Brasil atravessar a crise argentina depende não apenas do desfecho, mas também da reação dos mercados. A equipe econômica está monitorando todos os passos do país vizinho. Ainda de acordo com uma qualificada fonte da área econômica, o governo considera inevitável a desvalorização do peso argentino. A tentativa de renegociação do serviço da dívida, em curso na Argentina, é interpretada aqui como uma proposta para ganhar tempo e fôlego para a mudança cambial.

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