Governo anuncia Renda Cidadã, programa substituto do Bolsa Família
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segunda-feira, 28 de setembro de 2020
BERNARDO CARAM, DANIEL CARVALHO E THIAGO RESENDE 
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Após negociação com líderes partidários, o governo decidiu fechar uma proposta para o novo programa social que substituirá o Bolsa Família, respeitando a regra do teto de gastos. A informação foi anunciada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), após reunião com ministros, deputados e senadores.

Também esperado para esta segunda-feira (28), o anúncio da proposta de reforma tributária, com novo tributo sobre transações financeiras e corte de encargos trabalhistas, acabou não sendo feito. Não houve acordo entre o governo e parlamentares em diversos pontos, principalmente em relação à nova CPMF. "O Brasil, segundo a orientação do Paulo Guedes, tem que voltar à normalidade o mais rapidamente possível. Estamos buscando recursos com responsabilidade fiscal e respeitando a lei do teto. Queremos demonstrar à sociedade e ao investidor que o Brasil é um país confiável", disse o presidente, rodeado por líderes de partidos do centrão, grupo que passou a integrar a base de sustentação do governo desde que cargos de segundo e terceiro escalão começaram a ser liberados.
A decisão vem pouco tempo após o presidente ter afirmado que vetou qualquer discussão sobre o novo programa social e que o governo seguiria com o Bolsa Família até 2022. O relator do Orçamento do ano que vem, senador Márcio Bittar (MDB-AC), disse que o novo programa será batizado de Renda Cidadã. As regras serão incorporadas à PEC (Proposta de Emenda à Constituição) Emergencial, que traz medidas do pacto federativo e de ajuste fiscal. Ele também é o relator desse texto. De acordo com o senador, além do atual Orçamento do Bolsa Família, haverá duas outras fontes de recursos para o programa. O governo vai limitar os gastos com precatórios a 2% de sua receita corrente líquida.
O montante que sobrar nessa conta, limitado a R$ 55 bilhões, será destinado ao programa social. Em outra frente, parte da verba do Fundeb (fundo para a educação) será deslocada para que beneficiários do programa mantenham seus filhos na escola. Menos de uma hora depois de anunciada, a proposta já era alvo de críticas na cúpula do Congresso. Auxiliares do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), consideram que financiar o Renda Cidadã com recursos destinados ao pagamento de precatórios é inadmissível e classificaram a medida como calote.
Além disso, disseram considerar que o uso de recursos do Fundeb para abastecer o programa desrespeita o teto de gastos. Há duas semanas, Bolsonaro se irritou com uma proposta da equipe econômica que previa o congelamento de aposentadorias para bancar o novo programa social, que seria batizado de Renda Brasil. Ele chegou a proibir a continuidade dos debates sobre o programa. Até 2022, no meu governo, está proibido falar a palavra Renda Brasil. Vamos continuar com o Bolsa Família. E ponto final, afirmou na ocasião. No dia seguinte, porém, o relator do Orçamento de 2021, senador Márcio Bittar (MDB-AC), disse que foi autorizado pelo presidente a criar um novo programa em substituição ao Renda Brasil. Na área tributária, a proposta de Guedes de criar um imposto sobre transações financeiras também já foi alvo de crítica de Bolsonaro.
Em setembro do ano passado, o então secretário da Receita Marcos Cintra acabou demitido após defender o imposto. Depois, o presidente chegou a dizer que a discussão sobre o tributo poderia ser retomada, mas ponderou que a CPMF está demonizada. Defensor da proposta, Guedes insistiu na criação do novo tributo e convenceu Bolsonaro de testar a receptividade da medida entre parlamentares. Participantes da reunião desta segunda-feira afirmaram que ainda há divergências em relação à proposta. Segundo relatos, Guedes não insistiu na defesa do tributo aos moldes da extinta CPMF.
No encontro, ficou definido que o Congresso seguirá com a tramitação da reforma tributária enquanto o governo discute internamente possíveis soluções para essa fatia da proposta. O Brasil precisa criar empregos em massa, porque tem um problema de desemprego em massa. Do ponto de vista político, continuamos estudando esse capítulo, particularmente, na reforma tributária, afirmou Guedes. O governo quer tentar chegar a uma nova proposta internamente para apresentá-la a Bolsonaro o quanto antes.
Com o aval do presidente, o texto será apresentado aos líderes, que dirão se é viável ou não. O presidente afirmou que sua intenção é ter as medidas aprovadas ainda antes das disputas municipais de novembro. Concluímos aqui o que devemos fazer nos próximos dias aproveitando, obviamente, este período antes das eleições que se aproximam para buscar alternativas, de modo que possamos, o mais rápido possível, colocar o Brasil na normalidade".


