Tomo três livros sobre globalização para ver se entendo melhor esse fenômeno do fim do século. Um deles propõe que talvez seja a vez do Brasil. Outro diz como enfrentar os desafios da competitividade mundial. O mais recente evoca a globalização como armadilha, um assalto à democracia e ao bem-estar social.
Em cada um desses aspectos os três parecem estar certos. Contudo, o que me deixou mais intrigado foi o que associou a globalização a uma armadilha. Escrito por dois jornalistas alemães, o livro já foi traduzido para 20 idiomas. É polêmico, porque coloca essa nova ordem econômica da globalização dos mercados e da busca incessante pela maior produtividade como fator desencadeante de alguns males sociais, como o desemprego. Fez-me lembrar do México, um pouco antes da crise de 1994, quando o capital especulativo mundial ainda promovia uma verdadeira orgia de lances e ofertas para compra de empresas mexicanas. Naquela ocasião , ouvi pela primeira vez sobre os perigos que o Brasil poderia enfrentar diante do mesmo movimento especulativo. Esse alerta, quase uma premonição, partiu de um velho amigo mexicano, auditor, sócio da Grant Thornton. Dizia ele, então, que o ritmo frenético da globalização estava acabando com as pequenas e médias empresas de seu país e botando na rua milhões de trabalhadores. ‘‘Cuidado, não cometam o mesmo erro que cometemos, não deixem morrer as médias empresas brasileiras’’, avisou.
Pouco depois, o México entrou em crise, perdeu num só dia US$ 9 bilhões de reservas cambiais e só não naufragou por completo porque Bill Clinton entrou com garantias de crédito que somavam US$ 40 bilhões. O presidente norte-americano foi movido por duas razões. A primeira foi evitar que o já volumoso contigente de imigrantes mexicanos que entra nos Estados Unidos anualmente, legal e ilegalmente, crescesse a níveis inimagináveis. A segunda foi brecar uma possível crise generalizada que poderia ser desencadeada nos países emergentes, derrubando por terra um dos mais importantes projetos da sua administração.
Perceba, caro leitor, como vivemos em perigo. As perspectivas declaradas por 500 representantes da elite mundial concluem que, no século 21, bastarão 20% da força de trabalho para fazer as coisas acontecerem na economia. E os outros 80%, o que farão? Viverão das migalhas que sobrarem das nações poderosas.
Debruçado sobre o livro de Geraldo Banas, Globalização, a Vez do Brasil?, verifico que, se algum país emergente vai ocupar espaço nessa disputa geral, esse país é o Brasil. Banas faz um inventário importante de nossos predicados agrícola, industrial e energético, que ele classifica como verdadeiro calcanhar-de-aquiles, para concluir sobre nosso potencial econômico a ser explorado. Como tantos outros, elogiou toda a região asiática que ‘‘alcançou status de nação industrializada, sem grandes perturbaçõe internas’’.
Talvez resida aí o nosso maior problema ante a globalização: excessiva dependência do capital externo, pouca valorização do made in Brazil e desatroso gerenciamento das contas públicas. O que não nos impediria de sermos bem-sucedidos se forem observados alguns passos difíceis, como coloca George S. Yip, no livro Globalização, Como Enfrentar os Desafios da Competitividade Mundial. Diz ele que, para desenvolver estratégia global, é preciso criar produtos nos mercados mundiais e emplacar um eficiente marketing nesses mercados.
Tão simples como ganhar da União Soviética por 2 a O na Copa do Mundo de 1958. Foi quando Garrincha, antes do jogo, desanimado com a explanação do técnico Feola, que parecia antever todos os lances do adversário, perguntou a ele: ‘‘Mas o senhor já combinou tudo isso com os russos?’’
ANTONINHO MARMO TREVISAN é presidente da Trevisan Auditores e Consultores

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