Globalização da vida
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de março de 1998
Idalto José de Almeida 
A velocidade das transformações que vêm ocorrendo mundialmente, e, em particular, em nosso País, têm provocado uma Nova Ordem Mundial, colocando a nossa frente grandes discussões sobre as crises globais de hoje, como a corrida armamentista, a fome, a poluição, o crime, as drogas e a falência social - sintomas de crises mais profundas na percepção humana.
Acredito que a nova realidade mundial, em desenvolvimento, cria um bom momento para que os nossos interesses locais sejam vistos no contexto mais amplo da família humana no planeta Terra. O Brasil deve ajudar a embasar os mercados éticos, ambientais e sociais do século 21, pois são eles que nos proporcionarão a maior garantia de sobrevivência e verdadeiro desenvolvimento humano.
O grande desafio que a presente discussão nos traz é a mentalidade arraigada que predomina na política, no mundo dos negócios, na mídia, nos meios acadêmicos, no sistema de saúde, na maioria de instituições modernas e na sociedade em geral, que tolera e até mesmo prega a adoção de perspectivas que nos impedem de lembrar que o mundo em que vivemos é um todo.
Esse tipo de compartimentação da realidade, essa cosmovisão analítica e reducionista, se apoderaram da indignação do homem europeu durante o século 17 e se tornaram a oculta mola-mestra da revolução Industrial e Científica - aquilo que hoje chamamos de Era das Luzes. Na época medieval, essa radical mudança do paradigma, da Fé para a Ciência, foi anunciada pela nova leva de pensadores seculares como Galileu, Kepler, Descartes e Newton. Aquilo que hoje conhecemos como cosmovisão cartesiana - de que o todo pode ser compreendido através de análise de suas partes num universo essencialmente mecânico como um relógio com sua ênfase na precisão e exatidão, na certeza e no equilíbrio.
Não há dúvidas de que o período das luzes produziu uma abundância de invenções científicas e tecnológicas novas e melhorou as condições de vida de milhões de pessoas. É provável que, enquanto caminho de desenvolvimento, ela tenha sido inevitável para uma espécie como a humanidade. Isso, por sua vez, levou a uma especialização cada vez maior e a fragmentação progressiva das disciplinas acadêmicas; estilhaçou o todo da criação até que os próprios átomos foram divididos para entregar seu terrível poder aos seres humanos.
Hoje, as consequências poderosas e muitas vezes inesperadas dessa visão estreita da realidade são inevitáveis: céus poluidos, lixo tóxico, vazamento de petróleo, desertos que avançam, florestas que encolhem, famílias e comunidades dispersas e pobres, milhões de crianças subnutridas ou vagam pelas ruas de nossa cidade, sem lar e abandonadas.
Após cerca de trezentos anos do início do iluminismo científico, sua força cultural ainda vive - dominando a política da maioria dos líderes do mundo. Os argumentos da segmentação da realidade e o industrialismo marcam seus seguidores, divergindo apenas quanto aos melhores meios de alcançar suas metas com eficiência produtiva - entendida de modo restrito - deu origem à economia e suas fórmulas racionalistas para o emprego dos recursos e povos da Terra. A economia torna-se uma disciplina poderosa e preeminente, oferecendo aos governos os instrumentos políticos para o gerenciamento macroeconômico.
Assim, a tarefa atual de redefinir desenvolvimento é muito mais do que apenas evitar os ciclos de prosperidade/colapso das economias capitalistas dominadas pelo mercado, ou a rigidez do planejamento central, à moda stalinistas: significa também, corrigir a poluição excessiva e a exaustão dos recursos da Terra causados por esses dois modelos desenvolvimentistas.
No Brasil e em outras sociedades industrializadas, o abismo crescente entre os ricos e os pobres deu origem a crises morais: corrupção dos padrões éticos, abuso de drogas, crime, analfabetismo, famintos e desabrigados por toda parte.
O problema básico é que a ideologia do industrialismo, cristalizada na teoria econômica, não é suficientemente científica para servir de base para um desenvolvimento equitativo e sustentável; é necessário uma estrutura teórica mais ampla, baseada em conceitos interdiciplinares. Precisamos levantar indicadores mais específicos já disponíveis, tais como a expectativa de vida e a mortalidade infantil, que já nos dizem mais sobre o progresso humano do que a quantidade de dinheiro que troca de mãos numa sociedade a cada ano.
Portanto, não há formulas fáceis e prontas para resolver a questão das necessidades dos países por um novo desenvolvimento sustentável, igualitário e culturalmente sensível. A primeira preocupação deve ser a de decodificar o DNA Cultural de nosso país e determinar quais os valores e metas ótimas para nossa sociedade. Em seguida identificar e apoiar os cidadãos planetários de todos os países, formado a Grande Família Humana em defesa dos Bens Comuns, incorporando os valores de competição, cooperação e criatividade.
Enfim, acredito na mobilização de empresários, profissionais liberais, autônomos, trabalhadores, estudantes, donas-de-casa, líderes comunitários, políticos, organizações governamentais e não-governamentais - cidadãos em geral: crianças, jovens e adultos, com o objetivo de abrir uma grande discussão sobre a globalização, mudando o foco de globalização da economia - defendida principalmente pelos meios de comunicação de massa, pelas lideranças políticas viciadas ao jogo do poder e por muitos economistas que são acostumados a lidar com estatísticas, não com pessoas - para globalização da vida; analizando o progresso econômico e modernização industrial, integrados a qualidade de vida, potencial humano, equilíbrio ecológico, justiça social, paridade do poder de compra e cidadania global em nosso pequeno e frágil Planeta Terra.
IDALTO JOSÉ DE ALMEIDA, é presidente da Fundação Mundo Verde e Amarelo e Diretor da Estratégia - Administração & Assessoria.


