Globalização: chamada geral
Diz-se que o brasileiro é um povo alegre, expansivo, festeiro. Nada o entristece. Sempre encontra motivos, mesmo nas derrotas, para expandir sua alegria. Ri à toa. Na comemoração dos 500 anos da chegada de Cabral ao Brasil, por exemplo, não conseguimos repetir o feito dos portugueses de cinco séculos atrás nossa Nau Capitânia naufragou mas tudo bem. O que importa se foi incompetência ou corrupção?!
Merecia melhor sorte o Florão da América, 500 anos após seu descobrimento. Afinal, somos uma grande nação, rica em recursos naturais e livre de terremotos, vulcões e tufões, cataclismas que causam prejuízos, sofrimento e destruição em tantos países. Somos, ademais, uma sociedade multiracial, livre dos preconceitos de cor e de credos. Portanto, uma nação favorecida pelas circunstâncias e que, não fosse pelas oportunidades desperdiçadas, poderia ocupar uma posição mais estratégica na confraria das grandes potências e, assim, participar mais ativamente na definição das políticas mundiais que sinalizam os rumos que este nosso combalido Planeta deve seguir.
Uma sucessão de administrações passadas, para dizer o mínimo, incompetentes, nos colocaram à margem dos grandes fóruns de concertação das políticas globais. Como país periférico, ficamos à mercê dos países industrializados no estabelecimento dessas políticas, muitas vezes contrárias aos nossos interesses. Sentindo-se senhores do comércio internacional, essas nações se outorgaram o direito de ditar as regras do mercado, quase sempre favoráveis aos seus interesses, embora induzindo-nos a acreditar no contrário. Agora, por exemplo, inventaram a tal globalização, com o argumento de nos favorecer com a abertura dos seus mercados para os nossos produtos, num aparente esforço solidário para um desenvolvimento global harmônico. Mas não é isto o que se vê. O que é dito contrasta com o que é feito. Del dicho al hecho hay siempre un gran trecho, diria Carlos Menem, ex-presidente argentino.
O Brasil acreditou nas propostas da globalização, porque, como propostas, elas são boas. Por essa razão ele aderiu rapidamente à iniciativa, abrindo as portas do seu grandioso e cobiçado mercado doméstico à sanha das potências industriais, na vã expectativa de obter uma reciprocidade comercial vantajosa, conforme a proposta parecia indicar. Foi engano. Nós não queremos simplesmente abrir aqui, para importar, importar e importar, enquanto nós não exportamos nada. Não se trata de discutir apenas a redução das tarifas de importação, mas, também, as barreiras não tarifárias, senão não adianta. Baixa a tarifa, mas depois tem barreira não tarifária e um protecionismo danado (Presidente Fernando Henrique Cardoso, no recente encontro da Cúpula do Mercosul, em Florianópolis).
Em plena vigência do mercado globalizado (1992 a 1998), a União Européia, por exemplo, conseguiu incrementar em 294% suas exportações aos países do Mercosul, contra 29% no sentido contrário. Despudoradas restrições fiscais, tarifárias, alfandegárias, burocráticas, retaliatórias, ecológicas, compensatórias, sanitárias, etc, impostas por eles aos produtos de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, fizeram essa diferença.
A ganância, nunca satisfeita, do capitalismo selvagem dos países ricos, cuja prosperidade e desenvolvimento foram construídos, em boa medida, às custas da pobreza e subdesenvolvimento do Terceiro Mundo, liberou sem restrições o acesso a seus mercados, sim, mas apenas para produtos de alta tecnologia, com os quais têm visíveis vantagens comparativas, enquanto continuam impondo barreiras e dificultando ao máximo a entrada em seus territórios de produtos de terceiros países commodities agrícolas, principalmente frente às quais não têm condições de competir em igualdade de condições com os países em desenvolvimento. Os países ricos defendem a abertura do mercado, de lá para cá, mas daqui para lá continuam fechados e protecionistas para seus produtos e produtores. Sem acordos que incluam os produtos agrícolas agora, não se negocia mais nada na Organização Mundial do Comércio e não será preciso realizar a próxima rodada (Pratini de Moraes, Ministro da Agricultura, em 30/11/2000, aqui em Londrina).
Precisamos organizar uma força-tarefa para combater o cinismo e a hipocrisia das grandes potências, que, ademais de nos enganarem com uma falsa abertura econômica, nos querem, também, orientar sobre como preservar a nossa natureza, para evitar um desastre ambiental planetário, já que a natureza deles há muito foi transformada em lindos campos de trigo, milho e soja, que produzem os grãos necessários ao seu autoabastecimento e ainda lançam as sobras subsidiadas no que sobra de mercado, prejudicando-nos duplamente. A petulância dos desenvolvidos chega a ser provocativa, se considerarmos que boa parte da sua riqueza e desenvolvimento foram obtidos às custas da destruição do meio ambiente em seus territórios e agora pregam com veemência a necessidade de conservar a enorme reserva de recursos naturais ainda existentes em nosso território, para garantir o ar puro que precisam. De graça, of course.
Ficam convocados, portanto, a integrar a Força Tarefa Antiespoliação, todos os brasileiros de bem, justos e honestos, que condenam e reprimem a tirania, a exploração e a corrupção, assim como repudiam o cinismo e a hipocrisia. Dispensamos a cooperação de Collor de Mello, Hildebrando Pascoal, Lalau, Luiz Estevão, Pitta, João Alves, José Gerardo e Belinati este, herói local.
- Amélio DallAgnol é pesquisador da Embrapa Soja, sediada em Londrina [email protected]





