São Paulo - O mercado brasileiro de telecomunicações, que movimentou R$ 143,8 bilhões em 2006, passa por uma situação inédita. Empresas gigantes - como a espanhola Telefónica e os mexicanos da Telmex/América Móvil - competem entre si e disputam ferozmente os clientes de maior renda. Para a maioria da população, no entanto, a situação da telefonia fixa continua parecida com a da época do monopólio estatal, há quase 10 anos, antes da privatização. Não existe opção para quem pertence às classes C, D e E.
A Telefónica lança em breve sua TV por assinatura via satélite, o que deve acirrar a briga. Existem ao menos duas formas de ver a disputa: como um embate entre operadoras de telefonia e empresas de TV paga ou entre os grupos espanhol e mexicano, que vai além das fronteiras brasileiras. A rivalidade entre Telefónica e o bilionário mexicano Carlos Slim Helú, dono da Telmex, começou na América Latina.
No meio desse tiroteio, está o consumidor. A Net - que tem a Embratel, uma empresa da Telmex, no controle - acusa a Telefónica de querer estender a sua posição monopolista na telefonia fixa para o mercado de banda larga. A Telefónica argumenta que, ao contrário, quer ter o direito de oferecer televisão, aumentando a competição no mercado de TV paga. Na prática, os dois grupos brigam para proteger seus respectivos mercados e pelo direito de atacar o mercado dos outros.
Há alguma verdade nas duas visões sobre o que ocorre hoje nas telecomunicações. Cada jogador escolhe o que melhor se encaixa em sua estratégia. ''Essa história de Telefónica contra Telmex é uma tese conspiratória'', afirma Francisco Valim, presidente da Net Brasil e principal ator do lado da TV por assinatura (ou, dependendo do ponto de vista, mexicano) da disputa. A Embratel, que pertence à América Móvil, divide com as Organizações Globo o controle da Net.
''O monopolista tem de perder receita'', diz Valim, para quem a Telefônica, concessionária de São Paulo, não poderia operar o serviço de televisão por assinatura no Estado com os atuais 94% de participação na telefonia fixa da região. ''Aconteceu isto com a Embratel, que tinha 100% do mercado de longa distância e hoje tem menos de 25%. Para defender a competição, ela precisaria ser incentivada a compensar a perda de assinantes atuando em outras áreas.''
O modelo brasileiro de telecomunicações previa que as três concessionárias locais - Telefônica, Brasil Telecom e Telemar - iriam competir entre si e com a Embratel em todo o País. Na prática, elas resolveram disputar somente os clientes corporativos, e mantiveram a oferta de telefones para clientes residenciais restrita à área de concessão.
A Brasil Telecom enfrenta a GVT, a única concorrente regional que teve algum sucesso. Ironicamente, a principal alternativa de telefone fixo é o Netfone, da Embratel, oferecido em parceria com a Net, que acusa as operadoras de monopolistas.
A disputa entre mexicanos e espanhóis se dá em várias frentes: nos mercados nacional e internacional, nos tribunais, no governo, na agência reguladora e até em associações setoriais. ''O nome do jogo é banda larga'', resume Alexandre Annenberg, diretor-executivo da Associação Brasileira de TV por Assinatura (ABTA).
Para ele, o cabo coaxial da TV paga leva vantagem sobre o par trançado das redes de telefonia fixa. ''A grande novidade discutida lá fora é a banda ultralarga, com velocidades maiores que 50 megabits por segundo, que não é possível no par trançado'', diz o executivo.

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