‘‘Para a minha geração, a da 2ª Guerra, o abandono da lira pelo euro não tem travo de renúncia e, sim, sabor de conquista.’’
Passou em branco, ontem, em 12 países da chamada Eurolândia, a extinção física oficial, como aviso prévio, das respectivas moedas nacionais. Moedas solenes, algumas delas com quase meio milênio de vida, paixão e sorte.
Já imaginaram propor a um francês, dez anos atrás, o descarte definitivo do franco, deletado por uma esotérica moeda comum, sem cara nem coroa? Seria o mesmo que levar um inglês, ainda hoje, a abrir mão da libra, moeda da rainha. Pois o francês largou o franco, assim como o alemão despediu-se do marco, símbolo da ressurreição germânica da hecatombe de 1943/1995 - ainda que rifada ao meio pelos despojos da guerra fria de todos os muros.
Para cada nação da civilizada e/ou atribulada Europa, a moeda sempre foi a terceira perna do tripé da identidade nacional, juntamente com a bandeira e o hino. A Eurolândia ousaria substituir também os hinos e as bandeiras do megabloco dos 12, dentro da União dos 15, a caminho de 24? Nem pensar.
Tecnicamente, é mil vezes mais complicado usinar a moeda comum que escrever um hino europeu ou desenhar uma bandeira única. Na história econômica dos povos, o abandono da moeda nacional só se deu pela carpintaria de uma nova moeda nacional. Quase sempre, em estado de choque econômico ou financeiro. Que o diga o Brasil do conto de réis/ cruzeiro/ cruzado/ cruzeiro/ real. Ou a augusta Argentina do peso/ austral/ peso/ dólar/ peso... Só faltou, por um lapso justicialista, a moeda perón.
Para os eurocéticos, a moeda única de um mercado comum sem fronteira não passa de arroto político de Estados nacionais sem tutano. Sociedade madura, a Europa faz o gênero da economia de mera reposição, sem apetência para a expansão. A economia do bloco não consegue expandir o PIB continental acima de 3% ao ano, nem sequer por meia década.
Vai daí que o desemprego endêmico transita há duas décadas pela bitola de 8% a 11% da população economicamente ativa. Tranche estimada pelo Eurostat, em 2000, ao redor de 167 milhões (então do tamanho de toda a população do Brasil). As empresas européias de alcance global perderam participação de mercado, dentro e fora de casa, para competidores americanos, japoneses e coreanos.
Mas o grande desvio de rota está nos atuais impasses físicos do modelo europeu de bem-estar coletivo. Sua rede de proteção social é capaz de fazer revirar nos túmulos, de inveja ou despeito, os socialistas fabianos do último quartel do século 19.
Secos & Molhados
Leite de pedra - A classe política européia vai ter de tirar leite de pedra nos campos adubados da Saúde, da Educação e, sobretudo, da Previdência. A mão ficou maior que o bolso. A massa de contribuições fiscais e parafiscais não mais consegue cobrir a massa de benefícios assegurados em estatutos pétreos.
Campo minado - Enquete da Spiegel revela que o risco de fratura atuarial da Previdência Social (sistema inventado pelo prussiano Bismark) constitui a preocupação maior dos alemães. Em segundo lugar, a invasão de imigrantes de todos os continentes. Em terceiro, o desemprego estrutural e/ ou institucional.
Rumo ao leste - A consolidação monetária da Eurolândia abre espaço político para os ensaios de ‘‘anexação’’, diria Lula, de outros nove países da demolida Cortina de Ferro. Polônia, Hungria e República Checa já estão na fila do gargarejo.
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