Gestores devem ser mediadores nas empresas
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quarta-feira, 01 de julho de 2009
Fernanda Mazzini<br> Reportagem Local 
Do desempenho do gestor depende o desempenho da empresa. É sabido que no mundo dos negócios uma equipe motivada e afinada com os interesses da organização trabalha melhor e consegue atingir mais resultados. E, nesse quesito, os gestores têm papel fundamental. Portanto, os líderes precisam estar conscientes de sua função de mediador. Quem conhece o seu papel pode conseguir ganho duplo para a empresa: no nível pessoal, referindo-se ao aspecto humanizado; e no produtivo, uma vez que pessoas mais confiantes e seguras produzem mais e melhor.
Essa é a teoria da Gestão Mediada, baseada nos princípios da mediação da aprendizagem. O conceito foi desenvolvido pelo israelense Reuven Feuerstein, que estudou Psicologia na Universidade de Genebra sob o comando de Jean Piaget. O seu pensamento, contrário à concepção inatista da inteligência, tem como base a modificabilidade cognitiva. Na sua avaliação, isso significa que a inteligência de qualquer pessoa pode ser expandida não somente na idade evolutiva, mas durante toda a vida de uma pessoa. No desenvolvimento cognitivo um papel fundamental é atribuído à Experiência de Aprendizagem Mediada.
O conceito deve ser usado por mediadores sejam eles pais, gestores ou professores com o objetivo de promover a modificabilidade cognitiva. Feuerstein desenvolveu tipologias de comportamento que o mediador deve utilizar conscientemente para construir uma relação educativa eficaz com o mediado. Transpondo a teoria para o meio empresarial, a gestão mediada pode contribuir com o conceito de liderança. As habilidades que são vistas como a qualidade essencial do professor na sua interação com seus alunos são igualmente relevantes para o gestor da instituição educacional nas suas relações com seus colaboradores, afirma o consultor David Sasson.
Ele também é israelense e colaborou por mais de 20 anos com Feuerstein, sendo considerado um dos maiores especialistas na abordagem. Sasson e Marcia Macionk, do Centro de Desenvolvimento Cognitivo do Paraná (com sede em Curitiba), ministraram workshop aos gestores da FOLHA sobre o assunto. A seguir os principais trechos da entrevista sobre a teoria da Gestão Mediada:
FOLHA Acreditava-se que uma pessoa nascia com uma inteligência já formada, que não podia evoluir e, no entanto, a Experiência de Aprendizagem Mediada apresenta um conceito diferente. Como essa teoria pode ser trabalhada ao longo da vida de um indivíduo?
Sasson A noção da modificabilidade humana, inicialmente, era irrelevante à área educacional, sobretudo na interação entre educador e educando, entre pais e filhos. Ao longo destas últimas décadas, observamos e nos damos conta da relevância da modificabilidade humana, ou seja, do potencial da aprendizagem do ser humano também na área organizacional e empresarial e não apenas no contexto escolar e familiar. Mais empresas e organizações se tornaram conscientes da utilidade e das vantagens de adotar uma abordagem que podemos chamar de abordagem mediacional, que coloca na prática esses princípios fundamentais da aprendizagem mediada. Cada empresa que acredite na modificabilidade dos seus colaboradores, que valha a pena investir na formação dos gestores ajuda a promover essa modificabilidade.
Muitas empresas têm optado por substituir funcionários mais velhos por mais novos. Dentro desse conceito da modificabilidade, as empresas estariam perdendo ao dispensar essas pessoas com mais idade?
Infelizmente essa é uma tendência percebida em vários lugares do mundo e não sei de forma precisa quais são as fontes responsáveis por essa tendência. No entanto, uma coisa é segura: a sociedade que renuncia facilmente à contribuição potencial desse colaborador, que desperdiça o enorme potencial que foi acumulado nas pessoas de uma certa idade e com larga experiência são sociedades que ao final das contas perde. E isso não quer dizer que os jovens de hoje não têm as mesmas capacidades das gerações precedentes. Ao contrário, os jovens de hoje são expostos ao mundo de estímulos tão sofisticados e tão diversificados muito mais do que no passado, ao ponto que eles têm até capacidades mais desenvolvidas e mais avançadas do que as gerações precedentes. E isso não contradiz a contribuição que deriva da experiência tão longa de uma pessoa de uma certa idade que já têm a experiência de vida à sua disposição e as implicações que podem enriquecer o repertório dos jovens a partir das experiências de vida do mais adulto, digamos assim. De modo geral as organizações devem valorizar os mais velhos e dar oportunidades para os mais novos, uma coisa não contradiz a outra.
Quais as características em um colaborador que o gestor deve avaliar?
Em primeiro lugar o gestor deveria conceber do seu trabalho e da sua função de forma diferente do que no passado. Antes o gestor tinha uma concepção da sua função, sobretudo como um diretor, de um supervisor, um avaliador do desempenho dos colaboradores. A partir da abordagem da gestão mediada, a função do mediador deve ser percebida de forma bem diferente e a prioridade é introduzir uma mediação da aprendizagem, mesmo se tratando de um contexto organizacional, empresarial, que tem objetivos de produtividade. Sabemos que mais e mais essa orientação do gestor que se refere à sua organização como uma organização que aprende, que pode crescer, que pode evoluir precisa que o gestor possa interiorizar e conceber da sua função, em primeiro lugar, essencialmente o papel de uma pessoa de uma fonte de aprendizagem e não apenas a autoridade que supervisiona, que verifica, que avalia o desempenho dos colaboradores.
E quais as características que um bom gestor deve ter?
Diria que o gestor deve ter a auto-percepção como um mediador, como um transmissor de conhecimentos, mas também de pré-requisitos cognitivos, metacognitivos, comunicacionais, socioafetivos. Todos esses pré-requisitos fazem parte do repertório indispensável do colaborador para promover sua contribuição à organização. Quando o gestor tem a iniciação, empreende esse trabalho de mediação com os colaboradores, ele não apenas contribui à promoção do colaborador na empresa, mas também contribui muito ao enriquecimento pessoal do indivíduo. A sua motivação, o seu sentimento de satisfação, sabemos que qualquer colaborador que se sinta motivado e bem remunerado e não apenas no sentido do seu salário, mas no sentido do investimento da empresa no seu bem-estar, na sua evolução profissional será um colaborador muito mais motivado a envolver-se, a contribuir do seu tempo, do seu esforço, da sua energia para ajudar também a evolução da organização na qual ele atua.
Sabemos também que há colaboradores resistentes quanto ao envolvimento com a empresa. Isso também pode ser modificado por meio da motivação e da gestão mediada?
Diria que o componente essencial para conseguir alcançar esse objetivo que descrevemos é uma mente criativa. O gestor com a mente aberta, com pré-disposição a escutar, a aprender, para evoluir ele mesmo na sua função de gestor vai gerir muitas estratégias de mediação criativa. Quando optamos pelo otimismo, vamos conseguir mesmo atuando com colaboradores que não demonstram uma disposição de forma fácil a envolver-se nessa abordagem. Essa postura mais otimista da parte do gestor vai gerir uma riqueza de estratégias de mediação que ajudam a superar essa dificuldade da falta de disposição inicial, da falta de motivação inicial da parte do colaborador. Um outro componente relevante é a personalidade do gestor. Como temos grande crença na modificabilidade do ser humano, não limitamos esse potencial de aprender; esse potencial de modificar-se apenas a certas áreas do funcionamento humano como a capacidade de aprendizagem ou de mudar de opinião. Acreditamos em no potencial de modificar-se também em tudo o que tem a ver com traços de caráter e de personalidade do gestor. O gestor que tem a convicção que certos traços típicos do seu caráter, da sua personalidade atrapalham, prejudicam e desencorajam a implicação e a motivação do colaborador, vai lembrar que tem a mente aberta e a disposição flexível para aprender e para mudar. Uma condição indispensável para poder conseguir vivenciar uma mudança tão profunda e significativa, em primeiro lugar é ter essa autoconsciência.
Como a educação recebida por uma criança pode influenciar na formação da sua personalidade e das suas características no mercado de trabalho?
O mediador familiar tem muitas decisões a tomar e tem muitas opções entre as quais ele vai escolher o seu modo de agir, seu modo de interagir com seus filhos. À medida que cada pai e cada mãe são conscientes de seu papel como pai e como mãe, de um papel multidimensional que não deve se limitar apenas a satisfazer as necessidades básicas de sobrevivência das pequenas crianças e às demonstrações de afeto, de amor, de cuidados. Cada pai e cada mãe devem visar o desenvolvimento intelectual dos seus filhos e, se eles não sabem como fazer isso, vão buscar informações. Esses pais com disposição a essa abertura da mente vão adquirir as ferramentas necessárias, o conhecimento necessário sobre como fazer para interagir de forma significativa com seus filhos. Gostaria de fazer uma observação importantíssima: mesmo indivíduos que não tiveram essa sorte de vivenciar com bons mediadores parentais e profissionais na vida podem tornar-se bons mediadores. A mediação é um fenômeno reversível.


