Gastos com serviços batem recordes
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de janeiro de 2004
Nilson Brandão Junior<br> Agência Estado 
Rio de Janeiro - Os gastos dos brasileiros com serviços essenciais bateram recorde ano passado. Em 2003, 23,4% da renda mensal do trabalhador foram usados para pagar tarifas públicas ou serviços com preços administrados, mais alta taxa nos últimos dez anos. A taxa ficou um ponto acima de 2002 (22,4%) e mais do que dobrou comparado aos 11,5% de 1995: 11,5%. A mordida das tarifas aumentou em paralelo à queda no rendimento.
Os dados constam de levantamento feito pela consultoria Global Invest a pedido da reportagem. Foram levados em conta as médias anuais dos gastos com 13 itens, dentre eles IPTU, água e esgoto, gás encanado e de botijão, energia elétrica, gasolina e telefone. Dois deles tiveram aumentos expressivos entre 1995 e 2003: o peso dos gastos em energia elétrica, no período, avançou de 1,1% para 4,3%; e o de telefonia, de 0,6% para 3,1%.
O economista da consultoria Alexandro Agostini explica que a gradual queda de renda, iniciada em 1997, obrigou a população a manter, na medida do possível, os gastos com os serviços essenciais. A renda média do trabalhador encolheu de R$ 1.074,82 para R$ 859,49 entre 1997 e 2003, conforme a pesquisa, com base nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com o recuo do rendimento, gastos com bens não essenciais e outros serviços, como entretenimento, perderam espaço.
Além da renda, o economista explica que a inflação captada por índices que servem como base para os reajustes avançaram muito recentemente.
Basicamente por conta dos efeitos da desvalorização, o acumulado do IGP-M em 12 meses do Índice Geral de Preços-Mercado (IGP-M) chegou a 39,2% até abril do ano passado. A desvalorização do real no segundo semestre de 2002 e no início do ano passado elevaram os IGPs, principalmente no grupo de preços ao atacado.
Estas variações elevadas serviram de base para os reajustes realizados a partir de meados do ano na energia elétrica e nas tarifas telefônicas. O problema tende a ser amenizado parcialmente a partir deste ano, as projeções de inflação mais baixa e o começo da utilização de um redutor da variação do IGP-M, chamado Fator X, no custo da eletricidade. Na prática, este fator já era previsto nos contratos de concessão, mas seu cálculo foi definido no ano passado, com o processo de revisão tarifária das distribuidoras de energia elétrica.
O coordenador de análises econômicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Salomão Quadros, estima que a inflação acumulada em 12 meses pelo IGP-M até abril e maio do ano que vem deverá ficar entre 5% e 6%. ''Pode surpreender até mais, ainda'', comenta Quadros. Para o ano de 2004, as projeções médias de instituições pesquisadas pelo Banco Nacional e Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) são as seguintes: IGP-M 5,97% e IPCA 5,94%.
Assim, o peso dos gastos com bens essenciais tende a cair em 2004 e, de novo, em 2005, avalia o consultor da Global Invest. Ele acredita que a taxa possa recuar um pouco, para algo em torno de 20%.
''Inflação baixa e câmbio estável: a soma destes dois efeitos vai gerar um reajuste de tarifas públicas pequeno, além do bom desempenho previsto para o preço dos combustíveis'', comenta Agostini, citando, ainda, a perspectiva de uma recuperação econômica.


