Gasolina subiu quatro vezes mais que a inflação
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sábado, 06 de janeiro de 2018
Nelson Bortolin<br>Reportagem Local 

O londrinense pagou em média R$ 4,141 pelo litro de gasolina no final de dezembro, um preço quase 11% maior que o da primeira semana de 2017. A variação equivale a quatro vezes o índice de inflação oficial (IPCA) projetado para o ano passado (2,78%), segundo o último Boletim Focus, do Banco Central. Já o valor médio do etanol no fim de 2017 em Londrina (R$ 2,928) era apenas 2,6% maior que o do começo do ano. Os dados são da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis).
Até junho, os preços dos dois combustíveis apresentaram curvas descendentes, mas dispararam no segundo semestre (veja gráfico). O aumento de julho a dezembro foi de cerca de 20%. Embora pese bastante no bolso do consumidor, o preço médio da gasolina em Londrina não é dos mais altos. De uma lista de 86 municípios pesquisados na Região Sul pela ANP, o valor de Londrina no final de 2017 era o 55º maior. Em geral, a gasolina é mais cara no Rio Grande do Sul e mais barata em Santa Catarina. Os preços do Paraná são intermediários.
Das 29 cidades paranaenses abrangidas pelo levantamento, somente 10 fecharam o ano com gasolina mais barata que a de Londrina. Entre elas, Cambé (R$ 4,040), Curitiba (R$ 4,002) e cidades da região metropolitana da capital, que ficam próximas à refinaria da Petrobras, em Araucária.
Rui Cichella, presidente do Sindicombustíveis PR sindicato que representa os postos no Estado -, diz que a forte alta da gasolina no ano passado se deve à nova política da Petrobras, que deixa os preços flutuarem de acordo com os valores internacionais do petróleo, mas também à tributação. "É preciso lembrar que o governo federal aumentou os impostos sobre a venda de combustíveis em julho do ano passado. E que esse imposto tem maior peso sobre a gasolina que sobre o etanol", justifica.
Apesar de não ser definido pela estatal petrolífera, o preço do etanol mantém relação com o do combustível fóssil. "A gasolina é um concorrente do álcool. Se um sobe o outro tem de subir", declara. No entanto, o valor do etanol varia mais em função da safra da cana-de-açúcar. "Como estamos na entressafra (dezembro a março), a tendência é de o etanol ficar mais caro neste período", conta.
Mas o fato de o preço da gasolina ter subido muito nos últimos meses deve servir de incentivo para os usineiros e a oferta de cana-de-açúcar tende a ser maior na nova safra, o que, segundo Cichella, vai garantir preços mais baixos para o etanol após o início da colheita.

NOVO REAJUSTE
A Petrobras anunciou novo reajuste para os combustíveis, com queda de 1,10% no preço da gasolina nas refinarias e recuo de 1,70% no preço do diesel. Os novos valores valem a partir deste sábado (6). A nova política de revisão de preços foi divulgada pela petroleira no dia 30 de junho. Com o novo modelo, a Petrobras espera acompanhar as condições do mercado e enfrentar a concorrência de importadores. Em vez de esperar um mês para ajustar seus preços, a Petrobras agora avalia todas as condições do mercado para se adaptar, o que pode acontecer diariamente. Além da concorrência, na decisão de revisão de preços pesam as informações sobre o câmbio e as cotações internacionais. (Com Agência Estado).
ÁLCOOL OU GASOLINA
O fato de o preço da gasolina ter subido muito mais que o do etanol aumenta a dúvida na cabeça do consumidor sobre quando vale a pena usar um ou outro combustível. É quase um consenso que toda vez que o valor do álcool representa 70% ou menos do da gasolina, o primeiro deve ser o preferido.
Por esse critério, apenas 4 das 41 pesquisas realizadas durante o ano passado pela ANP em Londrina mostraram o biocombustível mais vantajoso para o consumidor que o combustível fóssil. Isso ocorreu entre 24 e 30 de setembro, de 8 a 14 de outubro, de 19 a 25 de novembro, e de 3 a 12 de dezembro.
O gerente da concessionária Citroen, Mauricio Neves, orienta o cliente a não se fiar somente nesta regra. E a anotar o valor do abastecimento com gasolina e a quilometragem a ser percorrida. Quando o tanque estiver esvaziando de novo, o motorista deve apurar uma média de quantos reais gastou por quilômetro. A mesma conta deve ser feita posteriormente com o veículo abastecido com etanol.
Mas, segundo ele, a média não deve ser aferida na primeira abastecida com o outro combustível. "Abasteça pelo menos umas três vezes antes de fazer a conta", orienta. Segundo ele, mesmo nos modelos mais modernos, a performance do motor não é tão boa logo após a primeira troca.
O engenheiro mecânico da empresa Transtech, Paulo Gatti Santos, concorda com o gerente da concessionária em relação à "regra dos 70%". "Não acredito nela. Cada carro vai melhor com um combustível do que com outro", afirma. Por isso, a orientação dele é a mesma: que o consumidor faça a conta do gasto por quilômetro.
Mas Santos discorda de Neves quanto à necessidade de só calcular a média após três abastecidas com o outro combustível. "Em poucos quilômetros, a central do carro reconhece a troca e faz as correções necessárias."
Fazer a conta, segundo o engenheiro, é importante até mesmo para saber se determinado posto oferece combustível de baixa qualidade. "Nem sempre é vantajoso comprar gasolina naquelas promoções nas quais os carros fazem fila. Pode ser combustível de baixa qualidade. Aí, não adianta porque o carro não vai fazer média", argumenta.
Consumidores
O motorista de Uber Marcelo de Souza Marin concorda. "Eu desconfio quando vejo combustível muito barato. Você coloca e a média cai." Souza tem seu próprio critério para decidir quando é vantajoso trocar de combustível. "Se o álcool estiver R$ 1 abaixo da gasolina vale a pena", alega.
Desempregada, a técnica em processamento de dados Elaine Ambrósio deixou de usar o carro no seu dia a dia. "Ando de ônibus durante a semana. Só pego o carro no final de semana", conta. Nas suas contas, a gasolina subiu de 30 a 40 centavos no ano passado. E ela não quer saber de etanol. "O carro fica mais fraco, não tem o mesmo arranque", considera.
Na percepção do entregador Mauricio Junior Ristow a gasolina subiu "16%, 17%" no ano passado. Assim como Elaine, ele aposentou o carro durante a semana. Só anda de moto. Sobre quando é hora de trocar o combustível, ele admite: "Vai pelo bolso. Se tenho mais dinheiro coloco gasolina. Se tenho menos, abasteço com álcool." (N.B.)


