Gado é usado para lavar dinheiro, diz juiz
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sábado, 23 de julho de 2005
Hudson Corrêa<br>Folhapress 
Brasília - O juiz federal Odilon de Oliveira, de Campo Grande (MS), afirma que existe no país esquema de lavagem de dinheiro chamado de vaca de papel, baseado na compra e venda fictícias de gado.
Um dos casos em que, segundo o juiz, o vaca de papel foi provavelmente usado envolveu a lavagem de R$ 3 bilhões, de 1992 a 1997, incluindo dinheiro supostamente desviado de órgãos públicos. Oliveira disse que o sistema, descoberto na fronteira com o Paraguai há cinco anos, é usado para lavar dinheiro do tráfico de drogas e de corrupção.
A CPI dos Correios apura a movimentação de cerca de R$ 25 milhões nas contas da empresa SMPB, da qual Marcos Valério Fernandes de Souza é sócio. O dinheiro, segundo o empresário, foi sacado por pessoas indicadas pelo ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares para pagar dívidas de campanhas eleitorais. Inicialmente, porém, o publicitário disse à revista Veja que usava o dinheiro sacado na compra de gado.
Sem se referir ao caso Marcos Valério, Oliveira explica que o primeiro passo no esquema do vaca de papel é fazer uma inscrição como produtor rural nas secretarias estaduais de Fazenda. Nesse momento, o interessado na lavagem declara ter uma quantidade de gado que só existe no papel em uma fazenda também fictícia ou, em alguns casos, verdadeira.
A secretaria de Fazenda e a Receita Federal não têm como ir a cada fazenda contar o gado. Às vezes, o lavador (de dinheiro) tem dez animais e declara mil reses, diz o juiz.
Antenor Madruga, diretor do Departamento de Recuperação de Ativos do Ministério da Justiça, afirma que quanto maior a dificuldade de mensuração dos bens maior é a lavagem de dinheiro. Segundo ele, Oliveira conhece bem os crimes de lavagem e o esquema realmente existe no país.
A inscrição nas secretarias de Fazenda, segundo Oliveira, pode ser usada também para a compra de vacinas, reforçando a comprovação do suposto rebanho.
Quando recebe o dinheiro de atividades ilícitas (tráfico de drogas ou corrupção), o lavador, na expressão do juiz, diz que a quantia veio da venda do gado.
Em outro caso, realmente compra os animais, no caso de a fazenda existir, mas, escondendo ter recebido dinheiro sujo, diz que o gado sempre esteve no pasto, como declarara à secretaria de Fazenda. Ele pode, então, revender o rebanho e comprar outros bens.
Madruga afirma que o ministério já relaciona o vaca de papel entre os tipos de lavagem de dinheiro existentes.
Esse nome existe há muitos anos (desde 1821). Você tomava empréstimo em dinheiro e pagava com vacas. Era legal e no fio do bigode, diz Laucídio Coelho Neto, presidente da associação de criadores de Mato Grosso do Sul.
Por um dos esquemas montados na fronteira foram movimentados R$ 3 bilhões na extinta agência do BCN em Ponta Porã (MS) de 1992 a 1997.
Desse total, R$ 1,88 bilhão passou pelas contas de três fantasmas (nunca encontrados pela Justiça) e de um laranja (teve seu nome usado) que aparecem em quatro escândalos de corrupção no país.
Os casos são: 1) o rombo na extinta Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia); 2) o suposto desvio de R$ 550 milhões na obra da avenida Jornalista Roberto Marinho, em São Paulo, de 1993 a 1996; 3) o escândalo dos precatórios (venda de títulos no valor de R$ 3 bilhões por Estados e municípios de 1993 a 1995) e 4) o desvio de R$ 169,5 milhões da obra do prédio do TRT-SP (Tribunal Regional do Trabalho em São Paulo).
Oliveira afirma que, apesar da condenação a 132 anos de prisão em dezembro passado do ex-gerente do BCN Elesbão Lopes de Carvalho Filho, o dinheiro não será recuperado.
Segundo o juiz, a compra fictícia de gado pode ter sido usada na lavagem do dinheiro movimentado pelos fantasmas, envolvidos no escândalo de corrupção.


