Gado é solto para evitar vacinação
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terça-feira, 21 de novembro de 2000
Maurício Borges de Apucarana 
O impasse nas negociaçõess entre a Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab), núcleo de Ivaiporã, e os acampados da Fazenda 7 Mil, levou os sem-terra a soltarem 665 cabeças de bovinos. O gado foi retirado da fazenda na quinta-feira e abandonado numa estrada rural que liga os municípios de Arapuã e Nova Tebas, na região central do Estado. Ontem os sem-terra retiraram mais um lote de animais da fazenda.
Segundo informações da delegacia de Jardim Alegre, onde a queixa foi registrada pelo administrador da 7 Mil, José Carlos Ribeiro Novais, a boiada solta há três dias, acabou se alojando numa pastagem de 50 alqueires, da Fazenda São Gabriel, de propriedade do advogado Renato de Oliveira, de Ivaiporã.
Oliveira explicou ontem que a porteira da sua fazenda foi aberta por técnicos da Seab, para desbloquear a estrada e também por medida de segurança. Com o gado preso num piquete, a Seab solicitou o uso da mangueira para vacinar os animais, informou o proprietário, acrescentando que todos foram imunizados. Esse foi o terceiro lote de bovinos solto pelos acampados da 7 Mil. Nas ocasiões anteriores, o gado foi deixado no Parque de Exposições da Sociedade Rural Centro do Paraná (Sorcep), em Ivaiporã.
As fazendas Corumbataí e Canadá, mais conhecidas como Fazenda 7 Mil, com área de 5,7 mil alqueires, distribuídos nos municípios de Jardim Alegre, Ivaiporã e Godoy Moreira, estão ocupadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) desde abril de 1997. Os laudos de improdutividade e o decreto de desapropriação foram derrubados na Justiça federal pelo proprietário Flávio Pinho de Almeida, que aguarda o cumprimento da reintegração de posse há mais de dois anos.
O impasse na vacinação contra a febre aftosa, que levou os sem-terra a recorrerem mais uma vez à retirada de bovinos da área invadida, já durava três semanas. Veterinários e técnicos ligados à Defesa Sanitária Animal (DSA) pretendiam vacinar os animais, mas não tiveram êxito na negociação com os líderes do MST, que só admitiam a entrada dos técnicos na propriedade. Com cercas arrebentadas, gado arredio e solto em extensas áreas de terras, era preciso a ajuda de peões para arrebanhar os animais, e isso não foi permitido pelos sem-terra.
O administrador José Carlos Ribeiro Novaes, revelou ontem que a condição de sanidade das cerca de mil cabeças retiradas da 7 mil é muito precária. Os animais, além de magros, estão infestados de berne e carrapato, revelou ele, frisando que nenhum animal havia recebido vacina contra febre aftosa. No fim de semana o proprietário da 7 Mil conseguiu embarcar o lote de 665 cabeças e transferí-lo para fazendas em Ortigueira e Iretama, além de outras áreas de pasto arrendadas.
A Folha ligou várias para o escritório do advogado do MST, em Ivaiporã, Elso Bittencourt, mas não o encontrou, e nem obteve retorno das ligações feitas para falar do assunto. O mesmo aconteceu ontem com os líderes do movimento em Curitiba. As sondagens feitas pelo serviço reservado da Polícia Militar, inclusive com sobrevôos na 7 Mil, deixaram os acampados preocupados e em estado de alerta, eles temem que uma operação de desocupação da área esteja em curso.


