O Brasil e a América Latina estarão hoje no centro das preocupações dos vice-ministros das Finanças das potências industrializadas do Grupo dos Sete, que se reúnem em Londres.
Embora o tema do encontro, convocado há dez dias, seja a crise russa, as turbulências na América Latina, que foram desencadeadas pelo colapso do rublo e a decretação de uma moratória parcial por Moscou, devem ocupar boa parte das deliberações, disseram fontes oficiais.
Não estava claro, no fim de semana, se as consultas na capital inglesa incluirão sondagens sobre contribuições financeiras dos países do G-7 diretamente ao Brasil e aos demais países em apuros ou, de forma indireta, reforçando a linha de crédito de emergência para a América Latina que o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento começaram a negociar na semana passada, segundo o presidente do BID, Enrique Iglesias.
A data do anúncio desse mecanismo de crédito, o montante exato (o número em discussão na sexta-feira era US$ 40 bilhões) e sua estrutura serão determinados, em parte, pela reação dos investidores, durante a semana, ao aumento do juros e às outras medidas que o governo anunciou na semana passada.
A expectativa não é boa e o pessimismo poderá ser reforçado pelo anúncio de reclassificação para baixo do risco de crédito do Brasil pela Standard & Poors, que é esperado para breve. Subsidiárias brasileiras de companhias multinacionais americanas foram instruídas por suas sedes na sexta-feira a se preparar para um período de grandes dificuldades nas próximas semanas.
A percepção de que o pior pode estar ainda por acontecer é alimentada pelo temor de que, por causa da evaporação do crédito para as economias emergentes provocada pela moratória russa e reforçada, agora, pela própria crise na América Latina, o Brasil não consiga refinanciar os cerca de R$ 80 bilhões de débitos que vencem até outubro .
‘‘O risco de um default é real’’, disse um executivo de uma empresa multinacional com forte presença no País, que acompanha de perto a crise. De acordo com um documento interno do banco de investimentos Lehman Brothers, este mês os vencimentos somam perto de RS$ 32 bilhões. Eles estão divididos em R$ 16 bilhões em papéis prefixados, RS$ 14 bilhões de títulos com juros variáveis (Selic) e R$ 1,9 bilhão em títulos denominados em dólar. No mês de outubro a situação será ainda mais dramática, pois os vencimentos passarão de R$ 50 bilhões - R$ 10,3 bilhões em papéis prefixados, R$ 36 bilhões em Selic e R$ 3,9 bilhões em títulos em dólar. Em novembro, os vencimentos caem para R$ 12,6 bilhões.
‘‘A crise não permite mais que os organismos multilaterais continuem a ter uma atitude reativa’’, disse o executivo. ‘‘Eles são a primeira linha de defesa do sistema, precisam ser mais agressivos porque podem, neste momento, ajudar a injetar confiança e tranquilidade para a travessia dos próximos dois meses’’.
De acordo com esta e outras fontes, as declarações de Camdessus e de Iglesias, na sexta-feira, dizendo que os organismos multilaterais estão prontos a ajudar, se sua assistência for solicitada, foram calculadas para provocar um primeiro impacto psicológico positivo enquanto trabalham na montagem de um mecanismo de assistência. As manifestações dos dois altos-funcionários internacionais provocaram fortes subidas nas bolsas.
Mas só esta semana se saberá se suas intervenções afetarão de forma favorável o fluxo de capitais e ajudarão a estancar a sangria de dólares e manter as divisas acima de US$ 50 bilhões - o nível abaixo do qual a situação ficaria ‘‘preocupante’’, segundo afirmação recente do próprio presidente do Banco Central, Gustavo Franco. Esse dado também influenciará as discussões do G-7 em Londres.

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