Londres - A cúpula financeira que acontece hoje em Washington, no âmbito do G20, é o primeiro passo para a integração dos países emergentes na nova ordem mundial. Existe hoje um consenso de que as nações em desenvolvimento precisam ter mais influência nas decisões globais, de forma a fazer valer o poder econômico que ganharam nos últimos anos.
Especialistas acreditam que a inserção dos emergentes, como o Brasil, se dará pela nova configuração das instituições financeiras. Esse seria o caminho mais rápido e eficiente, pois a crise deve provocar a remodelação de organismos como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, criados na Conferência de Bretton Woods, em julho de 1944.
''A crise nos países desenvolvidos aumenta o apelo para que os emergentes tenham mais presença nas decisões, até porque a Ásia e o Oriente Médio são vistos como parte da solução pelo tamanho de suas economias'', afirma o professor da London School of Economics (LSE), Francisco Panizza.
Para ele, a cúpula financeira no âmbito do G-20, grupo que reúne os países mais ricos e os maiores emergentes, ''é um primeiro passo na direção certa''. ''No longo prazo, é inevitável que essas nações tenham mais poder, o que estará refletido na reformulação das organizações internacionais.''
O tema esteve presente na reunião preparatória promovida pelo Fórum Econômico Mundial, no último final de semana, em Dubai. ''A eleição de Barack Obama e o próximo encontro do G20 oferecem novas oportunidades para as lideranças na reformulação da arquitetura financeira internacional'', concluiu a entidade. ''As maiores economias emergentes devem ter mais voz nas discussões sobre a reforma do sistema financeiro.''
Nesta semana, Gideon Rachman, colunista do jornal Financial Times, escreveu que a cúpula de Washington é um reconhecimento das mudanças no poder global. ''Um sistema internacional que não acomode a China, Índia e outros emergentes claramente não pode funcionar no longo prazo.'' O prefeito da City de Londres, Alderman David Lewis, afirmou recentemente que é o G20, e não o G7, que representa as principais economias do mundo atualmente.
O presidente da Inter-American Dialogue, Peter Hakim, avalia que a entrada das novas lideranças deve ocorrer pelas instituições financeiras. ''É a forma mais rápida, pois uma reforma do Conselho de Segurança da ONU, por exemplo, seria bem mais difícil e complicada.''
Panizza, professor da LSE, concorda. Para ele, mudanças no Conselho de Segurança - uma das grandes demandas do Brasil na esfera internacional - não seriam vistas como prioridade pelos Estados Unidos e pela União Européia, hoje envolvidos na combate à crise financeira e à recessão econômica. A ONU é outra instituição muito desgastada, principalmente depois que os Estados Unidos decidiram invadir o Iraque sem o aval da organização.
Mas o professor alerta que a maior inserção em instituições internacionais também representa mais responsabilidade. ''Não dá para ter maior atuação no FMI e não concordar com o que ele diz.''
Hakim, da Inter-American Dialogue, avalia que nações como o Brasil precisam entrar de forma mais firme nesses organismos, pois já têm autoridade e capacidade para isso. ''Não podemos ter sempre um americano como chefe do Banco Mundial e um europeu comandando o FMI, é preciso permitir a atuação de outros países.''
Para o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, que esteve nesta semana na Universidade de Oxford, o atual controle do fundo por poucos países ''não é aceitável''. ''Senti diretamente que as decisões do FMI dependem hoje do Tesouro dos Estados Unidos'', afirmou. ''É preciso aumentar a participação.''

mockup