Furtos no varejo abastecem comércio informal
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de outubro de 2006
Patrícia Cançado<br> Agência Estado 
São Paulo - O rapaz entra no supermercado e, poucos minutos depois, esconde uma garrafa de uísque na cintura. Passa por um corredor movimentado, retira lâminas da Gillette da gôndola, finge que lê a embalagem e sai com o produto na mão. Quando se distancia dos outros clientes, coloca o objeto no bolso da jaqueta larga. Num piscar de olhos. Dali, segue para a seção de escovas de dente e repete o mesmo ritual. O produto termina na manga do casaco. Antes de sair do supermercado, ainda pega um creme Nívea e um fio dental. A ação dura menos de dez minutos. ''Para quem já trabalhou na área não tem mistério. Eu entro, não faço cena e saio rápido'', diz o infrator. ''Eu sempre vendo uma parte e fico com alguns produtos para mim.''
A cena e o depoimento foram filmados por uma equipe de pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. Pela primeira vez um estudo sobre o tema procurou entender a fundo o comportamento do ladrão no varejo. Os pesquisadores entrevistaram 30 ''profissionais'' e gravaram cinco roubos, quatro deles simulados. O resultado é surpreendente: metade dos pequenos furtos no varejo é feita para revenda.
Trata-se de uma indústria que abastece, a partir de um trabalho de formiguinhas, a economia informal com pilhas, lâminas de barbear, cremes para o corpo e cabelo, protetores solares e bebidas, entre outros. ''São produtos caros, que rendem uma boa margem do lucro aos ladrões. Eles sempre vendem por metade do preço de gôndola'', afirma José Bento Amaral Júnior, coordenador da pesquisa da FGV ao lado dos professores Juracy Parente e Ciro Leichsenring. ''O resultado do roubo no Brasil é escancarado, está na cara da polícia, nos calçadões da Avenida Paulista. Isso não acontece nos outros países.''
O trabalho foi feito por encomenda de uma multinacional de bens de consumo e pelo instituto inglês Perpetuity Group. A pesquisa foi realizada em países onde o índice de informalidade é alto. ''A indústria está preocupada com o problema nesses lugares. O prejuízo não é só para o varejo, mas também para as marcas, que são vendidas em bancas de camelôs a um preço bem menor'', diz Amaral.
Segundo os varejistas que participaram do estudo, as perdas variam entre 0,3% e 5% da receita. A média é de 1,38%, o equivalente à rentabilidade do setor. Desse total, 80% representam pequenos furtos, de acordo com Amaral.
Como se trata de um roubo profissional, os gatunos estão quase sempre à frente da parafernália de segurança dos supermercados. Eles têm métodos sofisticados de roubo e sabem como driblar as câmeras, os seguranças uniformizados e à paisana, as caixas acrílicas que protegem os produtos e os alarmes nas portas das lojas. ''Enquanto a gente pensa no assunto 12 horas por dia, eles pensam 24 horas por dia. Eles vivem em função disso. O supermercado não'', diz Paulo Polesi, diretor de prevenção de perdas do Wal-Mart e presidente do núcleo de Etiquetagem de Origem, criado recentemente com o intuito de coibir roubos no varejo.


