A administração Clinton decidiu usar o Fundo de Estabilização Cambial dos Estados Unidos (ESF) para injetar bilhões de dólares na economia brasileira, como parte de uma operação internacional de suporte ao real de pelo menos US$ 30 bilhões preparada sob a coordenação do Fundo Monetário Internacional, a ser anunciada na primeira quinzena de novembro. De acordo com fontes do departamento do Tesouro, citadas hoje pelo New York Times, sondagens já feitas pela administração Clinton no Congresso americano indicam que o uso do ESF para ajudar o Brasil não deverá sofrer grandes objeções.
O ESF, que pode ser mobilizado pelo secretário do Tesouro sem autorização prévia do Congresso, tem no momento mais de US$ 20 bilhões. O cuidado da administração Clinton em consultar os congressistas sobre o uso de uma parte desses fundos na operação internacional de ajuda ao Brasil neste momento de crise deve-se à dura reação do Legislativo no início de 1995, quando abriu uma linha de crédito de emergência de até US$ 20 bilhões para o México.
Confiança O objetivo, na época, era ajudar o país a restabelecer a confiança dos investidores em meio a uma crise de pagamento provocada pelo acúmulo de dívida de curto prazo em dólares. O México ofereceu receitas de petróleo como garantia pelo crédito, usou US$ 12 bilhões dos US$ 20 bilhões postos à sua disposição pelos EUA e pagou US$ 500 milhões de juros antes do vencimento.
Não está claro se o governo americano pediu ou pedirá garantias reais pelo empréstimo de emergência que está disposto a fazer ao Brasil ou mesmo se a forma da participação na operação já foi discutida entre Washington e Brasília. Há duas semanas uma fonte oficial dos EUA, que não tem participação direta nos entendimentos entre os dois governos, disse que a administração Clinton pediria concessões comerciais ao Brasil em troca da ajuda. Um alto funcionário brasileiro que acompanha as conversações com Washington disse desconhecer tal demanda americana e deixou claro que ela não seria bem recebida. ‘‘É natural que quem empresta exija garantias, mas é importante que essas garantias sejam financeiras.’
Posição estratégica O certo é que as autoridades financeiras americanas concluíram que a estabilidade da economia brasileira é crucial para os interesses dos EUA e que vêem no Brasil uma oportunidade real de conter e reverter a crise financeira. ‘‘O Brasil é muito importante para o bem-estar da região, dos Estados Unidos e da comunidade internacional e todos nós estamos muito preocupados em ver como podemos ajudar’’, disse o secretário do Tesouro, Robert Rubin, ao New York Times, na sexta-feira, reiterando declarações das últimas semanas.
Esse argumento e a virulência da crise, que levou a Câmara de Representantes a deixar de lado suas objeções e aprovar verba de US$ 18 bilhões para a recapitalização do FMI, na semana passada, parecem ter convencido os congressistas americanos a não fazer objeções ao uso do ESF para o Brasil. ‘‘Acho que há muita gente apavorada no Congresso com o que está acontecendo nos mercados e o que podem acontecer em seus próprios distritos e eles não dirão nada (contra) se não tiverem que votar à respeito’’, afirmou uma fonte da Casa Branca.
Segundo o Times, Rubin acredita que a resposta positiva que o mercado deu nas duas últimas semanas às reduções de juros feitas pelo Federal Reserve e à ações do governo de Tóquio para sanear o sistema bancário japonês criaram um clima mais favorável para o desencadeamento da operação de socorro ao Brasil. Para Washington, o sucesso da operação é importante não apenas por seu impacto econômico, preservando o potencial de crescimento na região que compra uma fatia crescente das exportações americanas, mas também por seu efeito político de reafirmar a liderança de Washington na condução da política econômica internacional. Contestada por causa das desastradas intervenções que o FMI fez, com as benção do Tesouro, nas crises na Ásia e na Rússia, Washington viu erodir sua capacidade de influenciar decisões econômicas, como foi ilustrado pela atitude do Japão de ignorar repetidos apelos do Tesouro para cuidar de sua própria economia.
‘‘Depois de ter passado dezoito meses frustrantes em negociações com os japoneses, Rubin claramente sente que os EUA têm pouca influência sobre Tóquio’’, escreveu o Times. ‘‘No Brasil,contudo, os EUA têm mais chance de ganhar tempo e influenciar o programa de reformas, desde que não pareça estar ditando seus termos publicamente’’. De acordo com esse raciocínio, os EUA precisam ganhar tempo para armar uma nova arquitetura para o sistema financeiro internacional. Não está claro se o fundo de contingência proposto pelo presidente Bill Clinton, no início do mês, para ajudar países a enfrentar dificuldades financeiras provocadas por fatores fora de seu controle, estará pronto a tempo de ser usado para o Brasil.
Dedo de Clinton Independentemente da embalagem em que for apresentada, Washington dirá que a operação de socorro traduz a visão de Clinton para uma nova arquitetura dos sistema. O montante do apoio americano ao Brasil, via ESF, ainda não foi determinado. Sabe-se apenas que ele reforçará a parcela para desembolso imediato de pelo menos US$ 30 bilhões do empréstimo que está sendo articulado pelo FMI.
Os governos do Japão e da Alemanha já disseram a Washington que consideram o Brasil e a América Latina problema dos Estados Unidos e não têm intenção de participar de forma significativa, informou o Times. Mas o Tesouro continua a recrutar países dispostos a aumentar o bolo da assistência ao Brasil. São esperadas contribuições da França e da Espanha, que já se manifestaram dispostas a ajudar.
O FMI deve entrar com cerca de metade do crédito inicial, usando os US$ 15 bilhões do Acordo Geral de Empréstimo, uma linha especial de países ricos para emergências, criada nos anos 60 e usada até hoje apenas uma vez, nos anos 70, para assistir a Inglaterra.

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