Frigoríficos perdem margem de lucro
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quinta-feira, 03 de dezembro de 1998
Eduardo Magossi Agência Estado 
O setor frigorífico está tentando se modernizar em um momento em que enfrenta uma forte crise, pressionado por um estreitamento de suas margens. A redução nos preços da carne aliada aos juros elevados fizeram com que muitos frigoríficos fossem obrigados a atrasar seus pagamentos.
Além de tudo isto, o setor tem uma alta incidência de impostos federais o que reduz drasticamente os ganhos dos frigoríficos, explica Alberto Lira, presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria Frigorífica (Abif). Segundo ele, o setor está se empenhando para conseguir uma redução nos impostos federais ou a sua isenção.
Para isso, a carne teria de ser enquadrada na lista dos produtos da cesta básica, disse. Lira explica que, além de reduzir a carga tributária para o setor, a carne chegaria mais barata ao consumidor final.
Segundo Hélio Toledo, diretor do Sindicato da Indústria do Frio de São Paulo (Sindifrio), o pacote fiscal do governo pode agravar este cenário, com o setor já enfrentando uma forte inadimplência e com uma dezena de frigoríficos fechados no Estado de São Paulo.
Existe um descasamento entre o pagamento que o varejo faz para o frigorífico e o que o frigorífico faz para os pecuaristas. Isto faz com que os frigoríficos fiquem sem capital de giro, disse. Segundo ele, os frigoríficos não têm condição, hoje, de arcar com os custos dos altos juros para financiar o capital de giro.
Com o pacote fiscal, os juros ficaram mais altos, os créditos disponíveis se reduziram e, do outro lado, os consumidores reduziram sua demanda por proteína animal.
Toledo informa que, para tentar sobreviver à recessão, desde a crise da Ásia, os frigoríficos tiveram que reduzir o número de empregados e muitos, inclusive, migraram para outras regiões, principalmente o Centro-Oeste, onde o imposto é menor ou inexistente. Os frigoríficos precisam economizar o máximo possível para tentar atingir um equilíbrio financeiro, disse.
Para José Vicente Ferraz, analista da FNP Consultoria, o equilíbrio dos frigoríficos está extremamente precário. Segundo ele, esta situação acaba criando um círculo vicioso. Os frigoríficos com problemas financeiros apenas conseguem comprar boi pagando mais caro por ele, e acabam perdendo competitividade, explica.
Ferraz explica que muitos pecuaristas ficam com receio de vender para frigoríficos menores e não receberem. Durante 1998, muitos produtores tiveram seus pagamentos atrasados e alguns até não receberam nada. Por isso os pecuaristas adotaram uma postura mais conservadora em suas vendas, disse.
Segundo ele, além de cobrar um prêmio para frigoríficos menores, os pecuaristas também estão preferindo vender à vista, mesmo a preços menores, mas receberem efetivamente o dinheiro.
Recessão em 99 Ferraz acredita que em 1999 o cenário pode piorar porque uma recessão econômica está sempre associada a uma queda no consumo e queda nos preços da economia. Segundo ele, para o pecuarista, esta baixa de preço provocada pela recessão irá se unir a outra, determinada pelo ciclo pecuário.
Ele estima que, com isto, os preços do boi devem cair 15% em relação aos preços praticados este ano que já estão menores que os preços praticados em 1997 em cerca de US$ 1 por arroba. Segundo ele, o aumento de impostos propostos pelo pacote fiscal poderá onerar os custos de produção ao onerar o custo das operações financeiras.
Ferraz também acredita que os financiamentos disponíveis para a cadeia da pecuária fiquem mais restritos devido a uma maior seleção na hora de dar um aval de crédito e porque os recursos das operações 63 caipira devem cair de forma expressiva.
Cautela O analista afirma também que a recessão aliada ao aumento dos custos com redução das margens e aperto de crédito pode piorar a situação financeira de muitas empresas, criando o risco de inadimplência em cadeia nos frigoríficos.
O pecuarista precisará ter um cuidado especial na comercialização pois o risco de não recebimento será maior, disse. Ferraz elaborou, no mais recente boletim pecuário da FNP, uma estratégia defensiva para os pecuaristas onde destaca a importância de se manter a liquidez e evitar o endividamento.
Ferraz afirma que, no caso do produtor já estar
endividado, a melhor solução seria a venda de algum patrimônio. O analista também adverte sobre a possível ocorrência de inadimplência e sobre a importância, para o pecuarista, de ter acesso a informações que lhe garanta a tomada de decisões rápidas, quando necessário.
Pode ser que as medidas tomadas pelo governo não sejam necessárias para atingir os resultados esperados e que elas precisam ser complementadas com outras medidas como mudanças na política cambial, disse. Segundo ele, estar informado destas mudanças rapidamente pode ser uma questão de sobrevivência.


