Frigoríficos perdem competitividade
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domingo, 04 de fevereiro de 2001
Vânia Casado De Curitiba 
Nos últimos três meses fecharam ou suspenderam as atividades quatro frigoríficos, que corresponde a uma redução de 25% nos abates de bois registrados no Paraná. Para o presidente do Sindicato da Indústria do Frio (Sindicarnes), Péricles Pessoa Salazar, eles não conseguiram mais conviver com o estreitamento da margem de lucro que se agravou desde o episódio da desvalorização cambial, em 1999.
Naquela época, os pecuaristas decidiram alinhar o preço do boi com o dólar, o que iniciou o processo de distorções no setor. A despesa aumentou e a receita caiu. O setor que já operava com capacidade ociosa vem atravessando um período de ajuste e seleção de mercado
Por outro lado, por incrível que pareça, a declaração do Paraná como área livre de febre aftosa, ocorrida em maio de 2000, acelerou o processo de estreitamento das margens de lucro dos frigoríficos. O Sindicarnes se envolveu no processo junto com o governo estadual para que o Estado fosse declarado livre da doença, tendo como objetivo o aumento das exportações. Chegou a ajudar financeiramente a Secretaria da Agricultura, cedendo 30 veículos para a fiscalização.
Mas os frigoríficos não contavam com um contratempo, que ocorreu e que foi fatal para o processo se virar contra os frigoríficos: o estado do Mato Grosso do Sul, poderoso na pecuária, ficou de fora por causa do foco de febre aftosa ocorrido em Naviraí, em 1998. Na época, o Ministério da Agricultura proibiu o trânsito de animais e carne com osso do MS para os demais estados que conquistaram o status de área livre e vai suspender a portaria somente em maio, se a OIE reconher o MS como área livre de febre aftosa. Como consequência, caiu o preço da carne no MS e aumentou o preço do boi nos estados com área livre. O presidente do Sindicarnes, explica todo esse processo.
Folha Quantos e quais frigoríficos fecharam no Paraná nos últimos três meses? Quantos trabalhadores foram dispensados?
Salazar Foram quatro frigoríficos, sendo três somente no mês de janeiro. Foram os frigoríficos Pérola do Norte, de Santo Antonio da Platina, Norte Pioneiro, de Jacarezinho, frigorífico Loanda, de Loanda e frigorífico Umuarama de Umuarama. Juntos, esses frigoríficos representam uma capacidade de abate de 28 mil animais por mês. Só o frigorífico Umuarama tem capacidade de abate de 10 mil cabeças por mês. Com isso, entre 1.000 a 1.500 funcionários perderam seus postos de trabalho.
Folha Quais as causas desse fechamento?
Salazar - O estreitamento das margens de lucro vem se agravando nos últimos anos. A gota dágua nesse processo, por incrível que pareça, foi a aprovação do Paraná como área livre de febre aftosa, em maio de 2000. Quando o Paraná foi declarado área livre, o estado do Mato Grosso do Sul ficou de fora por causa do foco de febre aftosa ocorrido em Naviraí, em 1998. Como o estado é o maior produtor de boi gordo, com um rebanho de 23 milhões de cabeças, o fluxo de gado vivo e de carne com osso do MS para a região Sudeste era muito elevado. Ficaram com o status de área livre reconhecido pela Organização Internacional de Epizootias (OIE), os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina), que já tinham ficado livre da doença há um ano atrás. E o Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Goiás e Oeste do Minas Gerais foram declarados área livres no ano seguinte, exceto o Mato Grosso do Sul.
Folha Qual a influência desse processo que resultou no fechamento dos frigoríficos
Salazar Aconteceu o que não foi previsto. O boi que era transferido para abate nos estados do Sudeste ficou represado no Mato Grosso do Sul. Só o estado de São Paulo recebia 1,2 milhão de animais por ano. Com o fechamento da fronteira entre o MS e os estados da região Sul e Sudeste, os frigoríficos localizados no Paraná, São Paulo e Oeste de Minas Gerais tiveram que disputar o boi que ficou disponível no Norte do Paraná, Sul de Goiás e Oeste de Minas Gerais. O preço do boi subiu nessas regiões para cerca de R$ 39,00 a arroba, enquanto no MS o preço caiu para R$ 35,00, uma diferença de R$ 4,00 por arroba. Com isso, os frigoríficos paranaenses perderam competitividade.
Folha Mas a perda de competitividade não ocorreu em outros estados também?
Salazar Aí começou acontecer furos na fiscalização, que eu canso de denunciar e ninguém acredita. Os frigoríficos do MS continuaram vendendo carne com osso para São Paulo e Rio de Janeiro, apesar da proibição do trânsito de animais e carne com osso. As barreiras não foram eficientes para evitar esse trânsito. Afirmo e provo que coloco aqui ou em São Paulo um caminhão carregado com carne com osso. Se houvesse fiscalização eficiente nas fronteiras que realmente coibisse o ingresso de carne com osso vindo do MS, tudo bem. Eles poderiam vender somente carne sem osso por aqui, que é mais cara. E nós venderiamos carne com osso.
FolhaMas por que o Paraná foi prejudicado se grande parte do fluxo de animais ia para São Paulo?
SalazarA grande questão foi a diferença no preço do boi aqui e as demais regiões produtoras. Cerca de 60% da carne produzida no Paraná vai para São Paulo. E não tinha como continuar entregando o quilo do traseiro a R$ 3,50 se o Mato Grosso do Sul coloca a R$ 3,10 o quilo. Enquanto os frigoríficos do Paraná disputam o mesmo mercado pagando o boi a R$ 39,00 a arroba, os frigoríficos do MS pagam o boi a R$ 35,00 e vendem a carne pelo mesmo preço. Como vamos concorrer com o estado vizinho, que além de tudo é poderoso na pecuária?
Folha Então houve perda de mercado na venda de carne dos frigoríficos do Paraná para São Paulo?
Salazar Claro. Além disso, subiu o custo do frigorifico em função da elevação no preço do boi e o preço da carne ficou balizada pelo preço dos frigoríficos do MS, que é mais baixo. Eu não consigo vender carne aqui acima do valor da carne colocada no atacado pelo MT.
Folha A declaração de área livre de febre aftosa para o Paraná não trouxe bons resultados aos frigoríficos?
Salazar Não era para acontecer o que aconteceu. Eu mesmo trabalhei pelo Sindicarnes junto com a Secretaria da Agricultura no processo que antecedeu a ocorrência da liberação de área livre de febre aftosa. Dei palestras durante abertura dos Conesas Municipais (Conselhos Municipais que reúnem iniciativa privada e poder público para melhorar a sanidade e qualidade dos produtos agropecuários), participamos com a cessão de 30 automóveis para a SEAB. Ajudamos muito, mas a coisa virou contra nós. Não por uma ação deliberada de qualquer órgão. Não foi isso. Mas foi porque infelizmente o MS ficou fora do Circuíto Pecuário Centro-Oeste e não esperávamos por isso.
Folha E a venda dos subprodutos?
Salazar Na venda de couro, sebo, miúdos, cérebro e osso, o frigorífico apura R$ 105,00 por animal. Ou seja, o dinheiro do subproduto vai cobrir o prejuízo que o frigorífico tem na carne. E ainda cobre todas as outras despesas dos frigoríficos como luz, agua, impostos, funcionários, frete.
Folha Desde quando os frigorificos vêm operando no vermelho?
Salazar Há muito tempo. Desde 1999 quando houve a desvalorização cambial e o pecuarista decidiu nivelar o preço do carne com o dólar. Por outro lado, existem causas internas também para o fechamento das unidades. A capacidade instalada dos frigoríficos tanto no Paraná como no Brasil é muito alta e eles vêm operando com capacidade ociosa. A capacidade total de abate no Estado soma 110 mil cabeças por mês. E está abatendo metade disso. Há 10 ou 15 anos atrás, abatia entre 80 a 90 mil cabeças de bois por mês. Com isso, o Paraná não tem como suportar a quantidade de frigoríficos que tem. Estou falando apenas dos frigoríficos com inspeção sanitária, que devem ser 40 entre os frigofícos com SIF (Inspeção Federal) e SIP (Inspeção Estadual), que influenciam no mercado. Não estou contando os cerca de 140 matadouros municipais que abatem em média 30 mil bois por mês e que são concorrentes também porque o volume abatido corresponde a metade do abate dos frigoríficos com inspeção. E não tem boi para todo mundo. O rebanho paranaense é pequeno para atender essa demanda e a disputa pelo boi ficou muito grande.
FolhaExiste a ameaça de mais frigoríficos fecharem?
Salazar Está ocorrendo um ajuste e seleção natural de mercado. Tem muito frigorífico disputando entre si o mesmo mercado. Os que fecham deixam um rastro de inadimplência com os pecuaristas, e o setor perde a credibilidade, o que cria dificuldades para os que ficam. E a indústria não tem capital de giro para pagar à vista. Os frigoríficos que estão sobrevivendo, estão na bicicleta. Se parar de pedalar, caem. Essa é a situação dos frigoríficos hoje. O setor precisa de reestruturação geral. Outra dificuldade do setor é a concentração do varejo (supermercados). Eles vendem 80% das proteinas animais e por isso ditam as regras do jogo. De um lado, temos um setor forte e oligopolizado e do outro, temos um número grande de frigoríficos disputando o boi que está escasso. Por isso estão fechando mesmo.


