Os frigoríficos se transformaram em negócio de alto risco nas regiões produtoras de Presidente Prudente, divisa com o Paraná; em Araçatuba e em São José do Rio Preto. Há quem inclua na área de riscos também o Sul do Mato Grosso do Sul e o Médio Paranapanema, no Paraná. Em algumas dessas praças de comercialização de gado, é difícil encontrar alguém que não tenha perdido dinheiro com o ‘‘fechamento’’ de um deles. As empresas nascem e desaparecem deixando muitas dívidas, geralmente em nome de quem nada possui.
O modo de operação é praticamente o mesmo em todos eles. Começam comercializando gado com pagamento à vista, depois pedem prazo de 30 dias, pagam 6% de juros e logo anunciam endividamento excessivo e impossibilidade de pagar os compromissos assumidos em promissória.
Nelson Sykora é fazendeiro vítima. Vendeu o gado a prazo, como faz a maioria dos pecuaristas de Presidente Prudente e já não tem esperanças de receber seus R$ 30 mil em boi gordo. Como costuma dizer, seu produto ‘‘desapareceu, já foi consumido’’. Mas Sykora nem entrou na Justiça, depois que seu advogado constatou não existir nada de valor em nome do proprietário Osmar Capucci. O capital registrado pelo Frigorífico Pirapozinho também era pequeno, cerca de R$ 50 mil. Para quem movimentava R$ 5 milhões por mês só com a compra de gado e venda da carne, a segurança hipotecária é considerada pequena até pelo advogado do proprietário, Jailson Santiago que acredita numa recuperação do seu cliente. ‘‘Estamos negociando com os credores’’, disse.
Os sócios de Capucci eram seus cunhados e outros parentes, que também trabalhavam como funcionários da empresa atualmente fechada, e que não dispunham de patrimônio. O débito do frigorífico é superior a R$ 30 milhões só na fazenda pública. No ICMS do Estado não há débitos, mesmo porque os 7% cobrados hoje pelo governo paulista é um dos menores índices de impostos do setor em São Paulo. Para os pecuaristas que venderam gado a dívida de Capucci é de aproximadamente R$ 4 milhões.
O advogado Santiago diz existirem vários grupos interessados em fazer o frigorífico de Pirapozinho voltar a funcionar, no mesmo prédio e com pessoas físicas e jurídicas diferentes. Ele disse que Capucci poderá ser ‘‘apenas’’ um comprador de gado para a futura empresa, sem vínculo algum com a administração. Na verdade os edifícios onde se realizam as matanças, quase nunca pertencem ao comprador de gado o vendedor da carne. Em Rancharia, o Frigorífico São Martinho está mudando de administrador. O principal responsável até algumas semanas atrás era Eduardo Paulosi que está deixando a praça com uma dívida de R$ 4,5 milhões. No lugar dele está assumindo as instalações e o gerenciamento uma nova empresa.
Entre as vítimas do passado está gente instruída como o advogado Reinaldo Domingues. Ele disse que se habilitou judicialmente para receber R$ 50 mil referentes a 160 vacas que vendeu na administração de Paulosi, mas está certo de não conseguir nada porque ‘‘o responsável pelo negócio não possui capital de garantia’’.
Em Andradina, as instalações de um frigorífico para abate de 400 cabeças diárias, já trocou quatro vezes de dono só nessa década. O último resolveu encerrar as atividades, deixando para trás dívidas com centenas de pecuaristas. O Frigorífico de Jales convocou os credores e pediu seis meses de prazo para pagamento dos débitos. Apesar do acordo aparente, dois fazendeiros pediram a falência da empresa.
O procurador da Fazenda pública federal, Edimar Fernandes de Oliveira, disse que os frigoríficos abrem e fecham, ficam devendo milhões de reais para o governo mas são impossíveis de serem executados porque os proprietários não possuem bens em seus nomes. Uma máfia que Fernandes garante ser inatingível.
Edimir relatou processo de execução contra o frigorífico Santa Marina iniciado em 1994 ainda em tramitação na Justiça Federal de Presidente Prudente. O advogado fez minucioso levantamento tentando provar que os proprietários haviam maquiado a situação. Um deles, Márcio Brito Estevam, deixou o Estado de São Paulo e abriu outro frigorífico em Bataguaçu, no Mato Grosso do Sul. Estevam, que não quis atender a reportagem, mora em Presidente Prudente num edifício de extrema segurança particular. Até recentemente custumava chegar ao trabalho a bordo de seu helicóptero.
O Frigorífico Santa Marina foi transferido dele para outros sócios, mas a receita federal tenta provar que os débitos superiores a R$ 10 milhões são de responsabilidade de Estevam.
Guerra fiscal contribui para aumentar dificuldade. O justificativa do empresário é a inadimplência do comprador de carne, mas também a concorrência dos frigoríficos de outros Estados. João do Carmo, há 20 anos no ramo de frigorífico e dono do Itarumã de Jales, decidiu mudar parcialmente suas atividades para Aparecida do Taboado. Metade do serviço ele faz no Mato Grosso do Sul, e a outra metade do lado paulista.
E é fácil entender o motivo. Lá a alíquota de abate é de apenas 2%, contra os 7% paulistas. O gado também é em média 7% mais barato. Em São Paulo os donos de frigoríficos preferem repassar essa vantagem para os pecuaristas, pagando mais caro pela carne. Para Carmo, esse é o erro dos empresários. ‘‘Nós deveríamos usar essa vantagem para cobrir os custos de produção, mas preferimos inflacionar o preço para o fazendeiro’’, diz ele. A estrutura que Carmo possuía em Jales foi mantida com 84 dos 200 funcionários que agora trabalham apenas na desossa das carcaças.
O Sindicato da Indústria do Frio do Estado de São Paulo informa que dos 62 frigoríficos de exportação que existiam no Estado, restam 30. As unidades menores de abate e comércio foram 14 só na região de Presidente Prudente. Hoje existem apenas dois frigoríficos. Araçatuba e Andradina, tradicionais centros de criação e comércio também estão sem indústrias do ramo.ArquivoPecuarista deve optar por frigoríficos com inspeçãoAntônio José do Carmo
Agência Estado

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