Fraudes, euro e Brasil
A triste maré de fraudes nos balanços de grandes empresas nos Estados Unidos instalou forte crise de confiança nos mercados de bônus corporativos e de ações. A consequência natural foi a procura de outro porto seguro, já que o investidor tem alergia a números duvidosos.
Dessa procura por uma alternativa momentaneamente mais confiável ao crescimento da demanda pela moeda única da União Européia não foram necessários mais do que uns poucos meses. O euro explodiu, atingindo e superando ligeiramente a paridade com o dólar.
A pergunta que os mercados fazem é se esse movimento em direção ao euro será duradouro ou representa apenas uma fuga em meio a uma crise certamente finita. A resposta não é fácil pois implica em prever acontecimentos de todas as sortes, tarefa que geralmente economistas, sociólogos, cientistas políticos, governantes e empresários tentam executar com muita frequência mas com pobres resultados.
A favor da procura pela moeda européia trabalham, hoje, fatos como os escândalos contábeis e a queda violenta das bolsas americanas, os juros europeus maiores do que os dos Estados Unidos, a subvalorização do euro e a sobrevalorização do dólar após uma década de constante alta da moeda norte-americana. Contra o euro pesa a rigidez das economias da União Européia e a lentidão das suas reformas estruturais, somadas a uma expansão econômica lenta e ganhos de produtividade bem inferiores aos dos Estados Unidos.
O movimento migratório do dólar para o euro pode, portanto, ser de curta duração, estancando tão logo a economia americana mostre os primeiros sinais de recuperação efetiva. Algumas correntes de analistas apontam para o fato de que uma desvalorização do dólar frente ao euro, no momento, é até bem vista pelos EUA que vinham suportando fortes déficits comerciais em decorrência da sua moeda estar super valorizada. Porém a prazo mais longo, o imenso déficit não conseguirá ser atendido apenas pela ação comercial e os EUA terão de adotar medidas que voltem a atrair fluxos financeiros.
Dessa forma, é prudente não tomar decisões precipitadas com base no comportamento emocional dos fluxos financeiros. A não ser para os que possuem apetite para os mercados de risco, é melhor aguardar até que os números das economias reais que suportam o dólar e o euro sejam conhecidos e mostrem uma tendência clara.
Para o Brasil, cuja moeda joga no time do dólar, em princípio a desvalorização frente ao euro é positiva, abrindo possibilidades de maior exportação e menos importações, favorecendo a balança comercial. Mas não podemos nos esquecer de que não estamos sozinhos no planeta. Assim, a vantagem competitiva que ganhamos com um euro mais forte também se estende a outros países que competem conosco e com a Europa nos mercados internacionais, igualmente ávidos por exportar mais e importar menos.
É fundamental, portanto, prosseguir na luta pelos ganhos de produtividade, com redução dos custos de produção e diminuição da pesada carga tributária vigente no país. As consequências das flutuações cambiais, por serem efêmeras, não podem substituir a busca por fundamentos sólidos na economia.
Sérgio Martenetz é economista e conselheiro do Conselho Regional de Economia do Paraná
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