Sabor caféPó que faz o cafezinho brasileiro tem que ter aroma e paladar do verdadeiro café, diz Abic Casca de pau, aveia, centeio, milho queimado e outros ‘‘ingredientes’’ são vendidos como café, em embalagens apresentáveis que, invariavelmente, incluem informações que atestam a pureza do conteúdo. Em alguns casos, o grau de impureza no café em pó à venda no mercado brasileiro chega a 50% e a presença de milho - que, no caso também pode ser considerado impureza -, chega a 90%. Todas essas fraudes foram constatadas em análise do Instituto Adolpho Lutz.
A informação é da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) e a maioria das marcas que apresentam as irregularidades não pertence ao quadro de associados da entidade. A Abic diz que análises feitas em algumas marcas de empresas associadas também apontaram irregularidades.
Sabor aveia Das 1.115 amostras de marcas de café coletadas entre outubro e dezembro de 96 pela auditora Ernst & Young em 269 municípios de diversos Estados, e analisadas em São Paulo pelo Laboratório Adolfo Lutz, 981 eram totalmente puras, ou seja, produzidas só com grãos de café, e 134 continuam impurezas (cascas e paus) ou misturadas de outros produtos (como milho, cevada, etc). Essas 134 amostras impuras representam 77 marcas produzidas por empresas não associadas à Abic e três marcas de empresas associadas à entidade, que já foram punidas e perderam, automaticamente, o direito de uso do Selo de Pureza, conforme informa a Assessoria de Imprensa da Abic.
Segundo a Abic, 97% das amostras de marcas de cafés coletadas em todo o País no último trimestre de 96 são puras, e ‘‘apenas’’ 3% impuras ou com adições de outros produtos. Este é o resultado da pesquisa feita pela Abic que alerta: mesmo mais tranquilo com relação à pureza do produto, o consumidor deve continuar atento e só adquirir as marcas que tenham, na embalagem, o Selo de Pureza Abic.
Abic diz que saneou Para a Abic, entidade responsável pelo Programa de Controle de Café Torrado e Moído/Selo de Pureza Abic, instituído em 1989, a fiscalização permanente realizada nestes quase oito anos vem resultando no efetivo saneamento do setor. No início, por exemplo, quase 30% das amostras analisadas continham misturas - que chegavam a casos gritantes, como marcas com 80% de milho - e esse índice caiu agora para 3%.
De acordo com Talmo Alves Pimenta, diretor de Qualidade da Abic, verifica-se hoje que a maioria praticamente absoluta das amostras com misturas é de marcas não associadas à Abic. Além disso, são marcas que desde o início do programa sempre foram analisadas e constatadas com adições, o que mostra que está havendo pouco empenho por parte dos órgãos fiscalizadores e Promotorias Públicas das respectivas regiões onde estes cafés são produzidos ou comercializados.
Punição A ação punitiva da Abic compreende penalidades que vão da suspensão do uso do Selo (apenas no caso de amostras com impurezas superiores ao 1% permitido por lei) ou exclusão da entidade (no caso de misturas). E a empresa, quando perde o direito de estampar o Selo em sua embalagem, perde-o para todas as marcas. O resultado de todas as análises, de empresas associadas ou não, é encaminhado aos Procons e outros órgãos de defesa do consumidor, aos quais cabe a ação punitiva legal.
O sucesso que vem obtendo o programa da Abic decorre da forma sigilosa como ele é realizado. As amostras não são coletadas nas fábricas, mas sim nos pontos-de-venda, de norte a sul do País e sem aviso prévio, pela Ernst & Young, auditora que participa do programa desde o seu início. Acondicionadas em sacos de papel grosso, próprios para esse fim, as amostras são enviadas para a sede da auditora, no Rio de Janeiro, onde são indetificadas por código de barra e onde seguem para o Laboratório Adolfo Lutz, em São Paulo. Este por sua vez, analisa a amostra e expede um laudo sobre a sua composição, remetendo-o de volta para a auditora, que decodifica a amostra e, posteriormente, envia os resultados finais para a Abic.
Programa pioneiro no setor de alimentos, o Selo de Pureza Abic é hoje um atestado imprescindível para as indústrias, pois sua exigência faz parte da grande maioria das concorrências e licitações de empresas públicas ou privadas. Essa importância pode ser comprovada em números: em 1988, a Abic possuia 220 empresas que respondiam por 350 marcas. No ano seguinte, a entidade contava com 330 empresas e 463 marcas. Em 96, o número de empresas associadas somava 538 com um total de 1.062 marcas, uma evolução de 144,55% e de 203,43% respectivamente, desde a implantação do Programa.
Aumento do consumo O objetivo da Abic ao lançar o Selo de Pureza era devolver ao consumidor a credibilidade no produto, desenvolver em todo o público conhecimentos sobre o café e retornar ao consumo per capita de café no Brasil, de 4,5 quilos/ano da década de 60. A Assessoria informa ainda que essas metas vêm sendo atingidas passo a passo.
Em 1989, foram industrializados 6 milhões e 400 mil sacas de café, volume que saltou para 11 milhões de sacas em 1996. A previsão para este ano é uma industrialização de 12 milhões de sacas. A meta da Abic é chegar ao ano 2000 com 15 milhões de sacas industrializadas/ano. O consumo per capita, por sua vez, saltou dos 2,27Kg para 3,34Kg/ano no mesmo período.
A idéia de lançar tanto o Programa quanto o Selo de Pureza surgiu em 1987, quando uma pesquisa realizada para a Abic pela Vox Populi constatou que, para o consumidor brasileiro, ‘‘todo café era igual’’, ‘‘a maioria tem mistura’’ e que o ‘‘melhor produto era exportado’’.
‘‘O consumidor tinha razão’’, diz Talmo Pimenta. ‘‘As constantes intervenções governamentais, como os tabelamentos de preços, que nivelaram por baixo todas as marcas (suspenso em 1991), e o próprio programa de aumento de consumo interno desenvolvido na década de 60 pelo Instituto Brasileiro do Café (que inchou o setor de indústrias sem qualquer vocação para a atividade café), propiciaram a proliferação de torrefadoras que, além de não atenderem aos quesitos mínimos de qualidade dos grãos utilizados, ainda adulteravam os seus produtos. E foi exatamente para sanear o mercado e reconquistar o consumidor que lançamos esse programa, hoje seguido até mesmo por outros setores’’, afirmou.

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