Fátima Cruciol procurou uma das redes porque, pelo SUS, a consulta com oftalmologista demoraria um ano
Fátima Cruciol procurou uma das redes porque, pelo SUS, a consulta com oftalmologista demoraria um ano | Foto: Gustavo Carneiro



Estabelecimentos que realizam consultas e exames médicos a preços mais acessíveis e sem mensalidade, as clínicas populares entraram em processo de franchising, intensificando ainda mais sua expansão pelo País. Essas clínicas oferecem exames laboratoriais e de imagem e consultas de diversas especialidades atuando, de maneira geral, com a ociosidade da agenda dos médicos.

A ABF (Associação Brasileira de Franchising) não tem números de redes de clínicas populares especificamente, mas acredita que o segmento de serviços médicos, em geral, teve aumento devido a essas franquias. O número de redes de franquias na área médica cresceu 25% no primeiro semestre de 2017 em relação ao mesmo período de 2016, passando de 20 para 25 redes. O número de unidades nessas redes também teve incremento: eram 374 unidades de serviços médicos na primeira metade do ano passado, contra 449 no primeiro semestre desse ano – aumento de 20%. Essa redes faturaram R$ 163,4 milhões nos primeiros seis meses de 2017, com crescimento de 33,8% na comparação com o mesmo período do ano passado, quando o faturamento foi de R$ 122,8 milhões.

Segundo a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), há 67 clínicas populares em todo o Estado, que atendem cerca de 2 mil pacientes ao dia. "Esses estabelecimentos se propagaram não só no Paraná, mas no País inteiro em consequência do caos econômico do Estado", comenta Luiz Ernesto Pujol, secretário-geral do CRM (Conselho Regional de Medicina) do Paraná. Para ele, a situação econômica debilitou não só a saúde financeira da população, mas também sua saúde física, devido ao estresse e à insatisfação. "Quando o Estado não tem condições de suprir todas as necessidades, o que cabe ao povo são os planos de saúde suplementar."

No entanto, os encargos obrigatórios encareceram os planos de saúde, diz Pujol, em parte devido ao avanço da tecnologia que tornou os tratamentos e procedimentos mais caros. "Para manter tudo isso, os planos de saúde suplementar tiveram que elevar a cobrança, e a população não consegue pagar. Algumas empresas viram nisso um nicho de mercado."

Para Luís Rodrigo Milano, presidente em exercício da Fehospar (Federação dos Hospitais do Paraná), as clínicas populares são resultado de um movimento natural do mercado, surgindo como alternativa aos planos de saúde. "O movimento é diretamente proporcional à crise e à perda de usuários da saúde suplementar." Com a crise se alongando, Milano afirma que as clínicas populares são um segmento que tende a crescer e a se perpetuar, atendendo pacientes que não têm doenças crônicas, não precisam gastar com saúde todos os meses, mas precisam de atendimento imediato ocasionalmente.

Imagem ilustrativa da imagem Franquias de clínicas populares proliferam por todo o País



GANHO DE ESCALA
Para Fabiana Estrela, diretora regional da ABF, depois da crise, as clínicas populares permitiram que as pessoas - que antes tinham conquistado poder aquisitivo a ponto de terem um plano de saúde "top" - fizessem um "downgrade" de serviços médicos com atendimento "digno". "Se abriu um mercado importante que é uma clínica perto de casa, com médicos tão bons quanto de grandes hospitais e com um valor que posso pagar", ela comenta.

Com o sucesso das clínicas populares, os empreendedores viram nelas uma oportunidade de ter ganho de escala através do processo de franchising. "É um nicho que o pessoal encontrou e viu que, se gerenciado de maneira diferente, como um negócio, e com o paciente como cliente, é possível ter um resultado legal e replicar isso também", diz Fabiana. "As pessoas precisam de um serviço de qualidade com acesso mais fácil a especialistas, o que não tem no SUS."

Segundo ela, houve também demanda dos próprios profissionais de saúde que têm viés empreendedor. As redes e franquias de clínicas populares também cresceram quando os empreendedores perceberam que não é preciso ser médico para ter um negócio de saúde. "Como é um negócio, o gestor não precisa ter formação na área de saúde. Ele pode ter um diretor técnico da área", explica a diretora.

Empresa londrinense já tem franqueado

Em meio ao fenômeno das clínicas populares, empresários londrinenses resolveram investir no ramo com o objetivo de absorver a demanda de pacientes que estão na fila do SUS e não têm planos de saúde. A Atend Já, de Londrina, iniciou em julho processo de franchising e já tem uma franquia em Itajaí (SC). Há outras cerca de 10 em negociação, afirma o sócio Rafael Grizzo, que é dono de outras três franqueadoras e quis usar o conhecimento de nove anos na área para aplicar no segmento de clínicas populares, que considera promissora.

"Abrimos a empresa já pensando em processo de franchising. Quando o meu pai, falecido no ano passado, teve a ideia de iniciar o negócio, conheci o modelo de negócio e vi que iria crescer muito, tem muita capacidade de expansão no processo de franchising", contou Grizzo.

A empresa foi fundada em 2015 pelo médico Benedito Ledo Grizzo, que foi cirurgião pediatra por mais de 50 anos e professor da UEL (Universidade Estadual de Londrina) por mais de 30. Na época, ele estava se aposentando. O ortopedista Vanderlei Bernardo, um dos proprietários do Ortopédico (antigo Hospital Ortopédico de Londrina) e professor da PUC Campus Londrina, é um dos sócios.

O investimento na franquia varia de R$ 200 mil a R$ 300 mil, e o faturamento, em média, pode chegar a R$ 80 a R$ 150 mil ao mês. O franqueado conta com estrutura de suporte em todos os departamentos, atendimento via skype, telefone ou e-mail, treinamento constante e visita de um consultor de campo a cada três meses, afirma Grizzo.

Rede gaúcha presente em Londrina

No mercado desde 2013, a Docctor Med, rede de clínicas populares do Rio Grande do Sul com franquia em Londrina, abre mais de 15 novas franquias ao ano. Para Geílson Silveira, presidente da rede, o sucesso se deve ao fato de o modelo de negócio ser atrativo para os investidores. "Essa situação atual do País fez que os investidores olhassem para um outro segmento", comenta o presidente.

Ele lembra ainda que o modelo de negócio abriu o mercado de saúde para profissionais de outras áreas. "A área de saúde tem um grande paradigma de ser voltado aos profissionais de saúde. O investidor não precisa ter conhecimento nesse área porque nós temos." Segundo Silveira, 90% dos franqueados da rede não são profissionais de saúde.

O valor do investimento varia de R$ 250 mil a R$ 600 mil, já com capital de giro. Para começar, o estabelecimento deve ter, no mínimo, 10 profissionais e capacidade de atendimento de 200 pessoas por dia. Os exames de imagem são realizados em clínicas credenciadas. Já a coleta dos exames laboratoriais são feitos internamente. As consultas variam de R$ 80 a R$ 120. Mesmo com consultas a preços populares, o presidente afirma que o retorno financeiro vem com o volume de consultas e exames. O volume de atendimentos na rede cresce 20% ao ano, afirma.

INVESTIMENTO
A franqueada Andréa Carraro, de Londrina, é fisioterapeuta e saiu da área de estética para investir no ramo de clínicas populares. O investimento inicial foi de R$ 350 mil. "Eu tinha bebê pequeno e sempre tive vontade de ter um negócio próprio. Eu achava que a parte estética já tinha muito e que não seria algo diferencial na cidade." Segundo ela, o que a atraiu para o ramo de clínicas populares foi disponibilizar, em um centro médico, todas as especialidades a um preço acessível. "A gente vê aqui direto pessoas que estavam há anos na fila para conseguir uma especialidade." Hoje, o retorno financeiro é bom, diz Andréa. "O que a gente ganha é no volume. Não é um negócio milionário, mas dá um bom retorno." A franquia atende cerca de 70 pessoas por dia, com crescimento médio de 15% ao mês.

Pacientes buscam preços mais baixos e agilidade

A dona de casa Fátima Cruciol foi em busca de atendimento oftalmológico em uma clínica popular porque no posto de saúde a espera chegaria a um ano. "Quase não enxergo com o olho esquerdo", diz. Fátima nunca teve plano de saúde por não poder pagar as mensalidades. "Sempre foi no SUS ou particular."

O mecânico de manutenção industrial Airton César tinha que fazer uma nova receita de óculos, e para isso também resolveu buscar atendimento em uma clínica popular. A única vez que teve plano de saúde foi por intermédio da empresa. A mulher e dona de casa Aparecida Penha César, que segurava no colo o neto Victor, de um ano, conta que o casal sempre buscou atendimento em clínicas particulares ou em postos de saúde. Mas quando teve de aguardar seis horas por um atendimento no SUS, desistiu do sistema público de saúde. "Fiquei lá das 5 horas às 11 horas em pé com bebê no colo."

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