Considerados símbolos do Plano Real e explorados à exaustão como produtos que se tornaram acessíveis a toda população brasileira, o frango e iogurte (representante máximo dos supérfluos) deixaram de ser os produtos que convenceram as pessoas da estabilidade da moeda brasileira para entrar na lista da remarcação de preços. O quilo do frango resfriado, que chegou às prateleiras dos supermercados por até R$ 80 centavos, em 95, hoje custa em torno de R$ 1,40 o quilo, dependendo do estabelecimento comercial e da promoção do dia. O aumento é de 75%, contra uma inflação de 49,3%, entre dezembro de 94 e janeiro deste ano, segundo o ICV do Dieese.
O reajuste foi se dando à medida em que se acumulava a inflação e à medida em que produtores e fornecedores iam fazendo pequenos repasses de custos. Os supermercados passaram a receber mercadorias mais caras e a consequência direta foi remarcação de preço. Na sexta-feira, o Extra Supermercados, em Curitiba, vendia frango resfriado a R$ 1,35, sendo que uma placa colocada em cima da câmara refrigerada indicava que o produto estava em promoção.
Os supermercadistas justificam os reajustes, alegando que eles se dão sempre abaixo da inflação. ‘‘Temos produtos que estão até mais baratos, pois tivemos deflação em muitos itens’’, afirma o secretário geral da Associação Paranaense dos Supermercados (Apras), Moacir Moura. Ele afirma que, nas últimas semanas, tem havido uma pressão dos fornecedores para reajustar alguns produtos. O frango é um destes casos. Os criadores alegam que os custos com a ração aumentaram em até 90%.
‘‘Na verdade, o símbolo do Plano Real não foi o frango ou o iogurte, mas sim o dólar, que hoje está mais forte do que a nossa moeda’’, conclui Moura. Ele cita ainda produtos como o arroz e a carne, que passaram a chegar à mesa do consumidor com muito mais facilidade após o plano econômico e que hoje estão mais caros. Em janeiro, o quilo da carne aumentou 0,87% em relação ao mês anterior, segundo avaliação do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio Econômicos (Dieese).
Para fevereiro, a expectativa é de aumento em quase todos os itens básicos da alimentação de um trabalhador, segundo previsão feita pelo economista do Dieese, Nelson Karan. ‘‘Tudo indica que o pão e a carne serão os produtos que continuarão a subir’’, diz Karan.
Assim como o frango e o iogurte, o pão também sempre foi referencial para indicar que o País tinha uma moeda com poder de compra. Vendido a R$ 0,09 e R$ 0,10, o pãozinho não pesava mais no orçamento doméstico. Hoje, ele continua não refletindo tanto no orçamento mensal, mas está 20% ou 30% mais caro, conforme a panificadora.
No caso do iogurte, ele tem deixado aos poucos de ser o desejo de consumo das classes de mais baixa renda, não pelo preço, que caiu 11% desde o Plano Real, segundo pesquisa feita pela Faculdade de Administração e Economia, mas porque o consumidor fez uma redução no que considera supérfluo. ‘‘Em 95, o iogurte foi o auge do consumo’’, afirma o secretário geral da Apras. Moura diz que as vendas do produto aumentaram em 100%, mas em seguida começaram a cair. Nos últimos seis meses, a redução já era a metade em relação ao primeiro aniversário do Plano Real. Nas prateleiras, o produto ainda é bastante acessível à população, podendo ser comprado a R$ 1,89 a bandeja com seis unidades.

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