O Plano Real está comemorando três anos de avanços, segundo diagnóstico do diretor da área internacional do Banco Central, Gustavo Franco. O principal avanço é que a agenda a que está submetida a equipe econômica melhora de qualidade a cada aniversário. Neste terceiro ano de Plano Real, por exemplo, questões como inflação e desindexação da economia ficaram para trás, assim como as dúvidas sobre a convicção do governo em tocar a privatização para a frente. Esses temas deram lugar, agora, a uma saudável discussão de como o governo pode promover um novo ciclo de desenvolvimento para o País, sem comprometer a estabilidade econômica.
Às vésperas do início do quarto ano de vida do Plano Real, Franco considera que a aprovação das reformas constitucionais pelo Congresso não são mais uma questão de prosseguimento da estabilização econômica. Para ele, este momento já foi superado. O problema da votação das reformas, agora, é definir o tamanho do crescimento da economia desejado pela sociedade.
‘‘A estabilização não corre risco com este ou aquele atraso
no andamento das reformas, já fizemos o suficiente’’, diz Franco em entrevista exclusiva à Agência Estado. ‘‘O problema das reformas, hoje, tem a ver com o tamanho de crescimento econômico que desejamos.’’
Franco está satisfeito e não esconde. Mas faz um apelo para que economistas e analistas deixem os pruridos de lado e defendam suas verdadeiras opiniões em relação ao câmbio. ‘‘Há um certo pudor em falar claramente em defesa da desvalorização cambial, todavia é isso que essas pessoas estão falando’’, afirma. ‘‘O debate é aberto e vamos todos nos expressar de forma clara, tem gente que é a favor e nós somos contra’, afirma. A seguir, os principais trechos da entrevista:
AE - O debate que se abre sobre a volta do crescimento econômico deve ser encarado como uma encruzilhada do Plano Real?
Gustavo Franco - Já há algum tempo venho falando que o
processo de estabilização iria se converter gradualmente para um processo de reconquista do desenvolvimento. No fim das contas, se espera que crescer mantendo a estabilidade econômica é a prova última que o programa é para valer, que não é reversível. Portanto, esta é uma situação, a da estabilização, que já vencemos, mantendo um crescimento moderado. E a partir daí vêm as reformas, que vão determinar se o crescimento será maior. Mas a estabilização não corre risco, pois já fizemos o suficiente para que, se uma votação ou outra andar mais devagar, não haja problemas com a inflação. Os progressos são extraordinários nesses poucos três anos de vida do Plano Real. Há quatro anos, se ficássemos dizendo que pretendíamos, soaria como promessa de políticos.
AE - Há, porém, analistas que consideram contraditório crescer a economia com estabilização segura...
Franco - Conceitualmente não há contradição entre uma
coisa e outra. O que se diz de forma errada é que não se consegue crescer com as finanças públicas controladas, que seria necessário o governo gastar para que a economia possa crescer. Trata-se de uma visão equivocada. Não precisa de inflação para crescer, a inflação atrapalha e, para piorar, é um imposto sobre o pobre. É uma coisa própria dos tempos de ditadura militar, coisa do ex-ministro Delfim Netto. O que pretendemos é crescer com distribuição de renda, num ambiente de economia aberta e competitividade. E vamos crescer em um ritmo conforme a capacidade da sociedade em fazer as reformas constitucionais e recuperar as taxas de desenvolvimento que tínhamos no passado longínquo.
AE - Qual o seu balanço sobre os três anos de Plano Real?
Franco - Ao fecharmos o terceiro ano de programa, sinto
com satisfação que eliminamos várias ansiedades que haviam no primeiro e no segundo ano de lançamento do Plano Real. É muito claro, por exemplo, que não há mais questionamentos sobre uma eventual lentidão do programa de privatização do governo como tínhamos ano passado. Em evolução, no final do quarto ano de Real, algumas perguntas que hoje são feitas não serão mais realizadas e elas darão lugar a outras questões. O importante é que isso mostra evolução e o importante é evoluir sempre. É com que os questionamentos sempre existam.
AE - Em relação ao câmbio, dá a impressão que dentro de um ano ou mais, no ritmo da atual política, os exportadores terão ganho uma boa margem de receita para vender mais ao exterior. É correta essa análise?
Franco - A questão do câmbio é que não tem mudança nenhuma, a política é o que é. Não se coloca possibilidade de mudança. Alguns dizem que, com reformas o governo poderia adotar essa ou aquela alteração, mas é exatamente ao contrário. Com as reformas aprovadas, aí mesmo é que nada vai mudar na política de câmbio. O que eu acho é que há um certo pudor nas pessoas em falar em desvalorização, todavia é isso o que certos analistas quer dizer quando abordam o tema. Vamos todos nos expressar de maneira objetiva, tem gente que é a favor de uma desvalorização e tem gente que é contra. Nós somos contra. As coisas ficam como estão e com o tempo haverá naturalmente recuperação da taxa de câmbio. Mas a melhor maneira de incentivo ao exportador é o avanço da produtividade. Há um estudo da Funcex que as exportações estão se recuperando com produtividade e não com câmbio em si, cuja taxa se encontra hoje na média de 1993. Portanto, nem defasagem existe.
AE - O senhor tem conseguido êxito nas colocações de papéis do Brasil para investidores internacionais. O processo continua?
Franco - Temos planos de continuar, evidentemente. No
momento, estamos preparando um emissão de US$ 200 milhões em libras esterlinas. É uma emissão pequena, com o objetivo de nos posicionarmos no mercado de capitais de Londres.

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