Franco admite: Japão e
Rússia preocupam o BC
Agência Estado

Franco diz que o mundo é ‘um lugar perigoso’Cento e cinquenta dias depois da eclosão da crise do Sudeste Asiático, que tumultuou os mercados financeiros do mundo inteiro, e de posse de um volume de reservas cambiais de US$ 65 bilhões, o presidente do Banco Central, Gustavo Franco, ainda prega cautela. ‘‘É cedo para formar juízo de que tudo acabou’’, disse ele à Agência Estado .
Na sua opinião, embora ‘‘a tranquilidade seja crescente’’, o volume recorde de capital externo que entrou no País nos últimos dois meses e puxou as reservas para US$ 65 bilhões não permitiu uma visão mais clara do quadro pós-crise. ‘‘Só mais à frente vamos poder ter mais clareza disso’’, disse Franco.
O fato de ainda haver focos importantes de crise no mercado internacional, segundo ele, demandam a cautela. ‘‘O mundo é um lugar perigoso e cautela não tem nenhum problema’’, insistiu o presidente do BC. Seus assessores asseguram que, em relação aos focos citados por Franco, as preocupações são principalmente com a situação do Japão e da Rússia.
O presidente do BC disse que os fluxos atípicos de fevereiro e março - somente no mercado de taxas livres os ingressos líquidos ficaram em US$ 17 bilhões - devem ser de recursos que estavam represados. ‘‘Se não tivesse havido a crise asiática, provavelmente teríamos o mesmo nível de reservas de hoje.’’
Isso porque, segundo ele, ‘‘os fluxos aconteceriam’’ se tivessem sido mantidas as mesmas condições anteriores à crise, inclusive no que se refere às regras para o ingresso de recursos. Movimentos inusitados, como os fluxos da 63-Caipira (dinheiro externo destinado ao financiamento do setor rural e que nos últimos meses estava sendo aplicado em renda-fixa), de acordo com Franco, impediram uma maior clareza.
A expectativa do presidente do BC para abril e para os próximos meses é de um arrefecimento na entrada de capital no País. ‘‘É bastante claro que os fluxos de entrada dos próximos meses não repetirão o volume de fevereiro e março’’, afirmou Franco.
Uma das explicações para esta expectativa é que, principalmente em março, houve uma maior pressão na entrada de capital porque tomadores nacionais estavam aproveitando os prazos mínimos para captação de dinheiro no exterior e rolagem de dívida. Ainda em fevereiro, no entanto, estes prazos foram alongados de seis meses para até dois anos.
Em relação às críticas feitas pelo ex-ministro do Planejamento Antônio Kandir ao calendário fixo das reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom), que estabelece as taxas de juros, Franco foi taxativo. ‘‘Não queremos reinventar a roda’’, disse. Ele explicou que ‘‘em toda parte do mundo as reuniões têm data marcada’’.
Franco defendeu ainda o calendário fixo ressaltando que ‘‘há uma maior previsibilidade dos momentos de mudança’’. E pregou que ‘‘reuniões extraordinárias, só em casos de absoluta excepcionalidade’’. Até agora, a única reunião extraordinária do Copom foi no início da crise asiática, quando as taxas de juros foram dobradas.
Na opinião do presidente do BC, o calendário fixo do Copom permite uma condução mais tranquila da política monetária. Ao mesmo tempo, ressaltou, ‘‘o mercado futuro de taxas de juros - que é muito ativo no Brasil - adaptou-se bem ao calendário’’.
Para o País como um todo, acrescentou ele, também não é bom viver sabendo que ‘‘as mudanças podem acontecer a qualquer momento’’. Para Franco, não só o próprio Copom mas também o seu sistema de trabalho são irreversíveis. E explicou: ‘‘A independência do Copom é absolutamente sólida’’.

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