Franceses questionam soja brasileira
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quinta-feira, 25 de maio de 2000
Carmem Murara Enviada a Paris 
Os empresários franceses manifestaram ontem em Paris preocupação em relação à forma como o Brasil está produzindo soja. Eles temem que os produtores brasileiros comecem a plantar soja transgênica que ainda não tem mercado na França nem no restante da Europa. Na reunião, realizada na sede da embaixada brasileira em Paris entre os importadores franceses e os representantes da Secretaria da Agricultura e entidades agropecuárias do Paraná, foi solicitado ainda que o governo brasileiro invista com maior eficiência na rastreabilidade, isto é, no controle eficaz para saber se há ou não áreas plantadas com produtos geneticamente modificados.
Os representantes do Paraná e os deputados que acompanharam o encontro garantiram que o Brasil não planta soja transgênica, apenas investe em pesquisa. Mas eles manifestaram a preocupação em perder futuros mercados ao não apostar no transgênico. O deputado Odílio Balbinoti, que é o relator do projeto sobre transgênicos na Câmara dos Deputados, disse que o Brasil não pode ficar de fora dos estudos sobre transgênicos. A pesquisa é importante, mas sabemos que ainda não é hora de começarmos a produzir, por isso pedimos uma moratória de três anos para voltarmos a discutir o assunto, tranquilizou Balbinoti.
O clima da reunião entre franceses e paranaenses foi de muita dúvida. De um lado, os franceses temendo que o Brasil comece a produzir soja transgênica sem controle e de outro, os brasileiros achando que podem perder oportunidades de novos negócios, caso cresça a venda dos produtos geneticamente modificados. O membro da Federação Nacional dos Sindicatos dos Exportadores Agrícolas da França, Jean Pierre Marini, disse que a França também tem essa preocupação. Ela teme perder a oportunidade de ficar sem tecnologia ao se recusar em investir no transgênico. Marini fez uma ressalva e disse que, por enquanto, o mercado consumidor europeu não aceita o produto. É o consumidor que determina que tipo de produto ele quer e o que será comercializado, afirmou.
Marini fez um alerta à comitiva paranaense que está em Paris ao dizer que é necessário investir mais na qualidade do produto. Se o Brasil começar a plantar transgênicos será muito difícil separar os dois produtos, afirmou ao insinuar que os importadores franceses não iriam saber que tipo de soja estariam comprando.
O Brasil é hoje o único país exportador de soja que não adotou os transgênicos. A França é um importante mercado com quem o Brasil não pode abrir mão de comercializar. Os franceses importam por ano quatro milhões de toneladas de soja, sendo que 70% vem do Brasil. Um milhão de toneladas são de produtores do Paraná. Não adianta produzir soja transgênica se não tiver mercado. Setenta por cento de nossas exportações são para a Europa e Ásia, afirmou o presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP), Ágide Meneghetti. Uma pesquisa feita na França mostrou que 70% da população não consumiria produto geneticamente modificado.
Se os franceses estão com receio de que a soja transgênica está nas plantações paranaenses e brasileiras também os produtores do Paraná temem perder mercado ao não investirem no novo tipo de soja. O deputado Orlando Pessuti lembrou que a soja transgênica tem um custo de produção 25% inferior em relação ao tipo normal. Ele questionou os importadores franceses se esta diferença não iria ser decisiva na hora de escolher com qual país eles iriam comercializar. Os importadores disseram que o preço não é determinante na hora de decidir por um produto transgênico ou não.
Na avaliação do secretário da Agricultura, Antonio Poloni, a discussão sobre transgênicos tem de ser protelada no Brasil. Temos que investir em pesquisa para não ficarmos para trás, mas é certo que o momento é de cautela, afirmou. Poloni disse ter sentido na reunião que tanto franceses quanto brasileiros têm dificuldades muito semelhantes na hora de tomar decisões sobre os produtos geneticamente modificados. A reunião não serviu para fechar novos negócios de exportação, mas representou um momento importante para a aproximação do setor agrícola paranaense com os responsáveis pela importação de produtos brasileiros. A repórter viajou a convite da Faep.


