Em depoimento ontem no Congresso Nacional, o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, voltou a apostar numa reversão da trajetória de alta do dólar a médio e longo prazo. ''A desvalorização cambial não é um problema recorrente'', ponderou. Segundo Armínio Fraga, o regime de flutuação cambial permite, a longo prazo, uma convergência do câmbio para valores razoáveis. Ele disse estar convicto que o real está hoje excessivamente depreciado, ressaltando que esse fato não pode influenciar a análise quando se leva em conta um período mais longo.
De acordo com Fraga, o cenário de turbulência econômica provocou uma redução dos fluxos de investimentos externos para o País e levou as empresas a comprar dólares para proteger seus ativos, mecanismo conhecido como hedge. ''A nossa esperança é que parte da depreciação do real se reverta quando essa situação de turbulância passar porque a tendência será de as empresas saírem de suas posições de hedge'', afirmou.
Armínio Fraga reconheceu que a variação cambial tem sido um dos principais fatores do crescimento da dívida pública. Disse, entretanto, que o governo trabalha com a hipótese de queda na relação entre a dívida líquida do setor público e o Produto Interno Bruto (PIB), um dos principais indicadores utilizados pelos analistas e investidores para avaliar a solidez da economia brasileira.
Segundo Fraga, a relação dívida/PIB pode cair dos atuais 52,5% do PIB para 40,1% do PIB, em 2010, num cenário de estabilidade da taxa de câmbio e ausência de choques externos, conforme projeção que consta do acordo assinado pelo governo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Essa nova relação se tornará possível se forem mantidos, no período, um crescimento médio anual de 4% do PIB, um superávit primário de 3,5% e taxas de juros reais da ordem de 8%.
O presidente do BC esteve no Congresso para prestar contas das políticas monetária, creditícia e cambial do BC numa sessão conjunta que reuniu seis comissões legislativas e durou mais de três horas. Os parlamentares se mostraram preocupados com o grau de dependência do País de recursos externos e com a dívida pública, que só faz crescer apesar de todos os esforços do governo. ''As contas públicas não suportam a irresponsabilidade da política monetária e cambial'', criticou o deputado Sérgio Miranda (PCdoB-MG).
Fraga explicou que a dívida pública vem crescendo por causa da contínua desvalorização do real e também por causa da incoporação dos ''esqueletos'' como o governo denomina dívidas que já existiam, mas não eram contabilizadas nas contas públicas. Não fosse isso, argumentou, a relação dívida/PIB poderia ter caído em dois pontos porcentuais do PIB no primeiro semestre do ano, em vez de aumentar em 4,4 pontos percentuais, como ocorreu. Segundo dados do BC, 0,97 ponto porcentual foi consequência do reconhecimento de esqueletos e 3,44 pontos refletiram a desvalorização cambial.

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