Passados pouco mais de sete meses desde que venceu as eleições e pouco mais de dois meses desde que assumiu o cargo, e com a preferência e o apoio sustentado de oito em cada dez mexicanos, Vicente Fox Quesada converteu-se no presidente mais popular na história institucional mexicana. Durante as eleições presidenciais de 2 de julho do ano passado, Fox, candidato pelo direitista Partido Ação Nacional (PAN), venceu por apenas 5% de diferença sobre o oficial Partido Revolucionário Institucional (PRI). Apesar dessa estreita margem, que deu 45,52% ao PAN de Fox e 36,1% ao PRI; a ditadura perfeita, como afirmou o escritor Mario Vargas Llosa; que por 71 anos teve o poder.
Vicente Fox, empresário e agricultor, animado, conversador, que há apenas 12 anos ordenhava vacas e realizava exitosos negócios na indústria do calçado, cativou os mexicanos com seu estilo peculiar de fazendeiro. Em mangas de camisa, com suas inseparáveis botas de vaqueiro e apoiado por um eficiente aparato de imagem, promove por todo o país sua particular mensagem de mudança. Um governo empresarial, uma ‘‘República Empresarial’’, que promove uma paz negociada em Chiapas com o radical Exército Zapatista de Libertação Nacional; que lança uma ‘‘cruzada’’ contra os cartéis da droga; um governo que anuncia uma ‘‘luta frontal’’ contra a corrupção, que aprova a histórica extradição para a Espanha de Ricardo Miguel Cavallo, um ex-militar argentino acusado de crimes contra a humanidade durante a ditadura militar argentina.
Para milhares de mexicanos, em apenas 60 dias, o governo de Fox converteu-se no símbolo da mudança, da esperança, do adiado ‘‘bem-estar para as famílias’’, que nos quatro governos anteriores do PRI levaram a sociedade mexicana à ruína, até deixar o saldo de pobreza e marginalização em níveis de dar medo: de 60 milhões a 100 milhões de mexicanos na pobreza e com escassas expectativas de melhorar, e 30 milhões deles na pobreza extrema. Com a queda do velho regime e o desmoronamento do partido de Estado, que se mantinham unidos com o cimento da antidemocracia, a corrupção, as cumplicidades entre governo, empresários e igreja católica, e frente a um incontido avanço do crime organizado e do narcotráfico, Fox recebeu um país à beira da ruína econômica e institucional.
A primeira ‘‘prova de fogo’’ para o novo presidente foi descobrir que a captação orçamentária anual de US$ 143 bilhões não era suficiente nem mesmo para colocar o governo em marcha, e menos ainda para impulsionar os ambiciosos programas que prometeu como candidato presidencial. Assim, o passo inicial de Fox foi uma tortuosa negociação com o Congresso, que também foi renovado no dia 2 de julho de 2000, e que resultou o mais plural da história institucional mexicana. Nem o direitista PAN, nem o PRI, e, menos ainda o esquerdista Partido da Revolução Democrática (PRD) contam com maioria no Congresso. Dessa maneira, os três primeiros anos de governo, a metade de seu mandato, serão demarcados por um congresso pluripartidário e sem maioria qualificada, que obrigará o novo presidente a negociar cada passo que tente dar em seu projeto transformador. Mas as escaramuças com o Congresso são apenas uma das muitas batalhas que Fox deverá enfrentar.
Um dos problemas mais delicados para a gestão de Fox é o de buscar uma paz negociada com o Exército Zapatista de Libertação Nacional. O EZLN surgiu em 1º de janeiro de 1994, em Chiapas, e sua bandeira foi a reivindicação dos indígenas mexicanos que, por séculos, vivem em condições vergonhosas de abandono, miséria e marginalização social. Quando Fox assumiu a presidência do México, o EZLN cumpria sete anos de resistência a uma brutal ofensiva do governo de Ernesto Zedillo, que tentou prender seu líder, o ‘‘Subcomandante Marcos’’, e promoveu uma guerra de irmãos em Chiapas, índios contra índios, que custou mais vidas do que os escassos enfrentamentos entre o Exército regular e o EZLN. Diante deste problema, Vicente Fox anunciou durante sua campanha proselitista que resolveria Chiapas ‘‘em 15 minutos’’, e, em apego à sua promessa, no dia 1ª de dezembro de 2000, ordenou a retirada de uma parte dos militares de Chiapas, ao mesmo tempo em que enviava ao Congresso uma proposta para outorgar autonomia aos povos indígenas.
Enquanto Fox ganhava mais adeptos entre os cidadãos por seu peculiar estilo de governar – que, para alguns, é comparado ao do ex-presidente peruano Alberto Fujimori – a ultradireita mexicana, um setor do empresariado mais conservador, a Igreja Católica e até o partido do presidente, o PAN, opuseram-se abertamente à forma como pretende resolver o conflito armado em Chiapas. Para os conservadores e os ultraconservadores mexicanos, a marcha que o EZLN pretende realizar por 12 estados do país, onde se concentram as regiões indígenas e os focos armados, é mais um desafio lançado ao governo pelos rebeldes, significando a possibilidade de ‘‘contaminar’’ todo o país com o espírito zapatista.
Entretanto, a verdadeira guerra do novo governo se trava contra o crime organizado e, especialmente, o narcotráfico, que parecem dar mostras de pretender ‘‘calar’’ o novo presidente. Crimes coletivos em Sinaloa, Chihuahua e Baixa Califórnia – zonas dos cartéis da droga – um atentado contra o governador de Chihuahua, Patricio Martínez, e a fuga de um dos mais poderosos barões da droga, o narcotraficante Joaquín Guzmán Loera, que fugiu de uma das prisões de ‘‘segurança máxima’’, deixam ver quais são os verdadeiros problemas a enfrentar. O do crime organizado e do narcotráfico, além do doloroso problema dos milhões de mexicanos ‘‘indocumentados’’ que cruzam o rio Bravo em busca de trabalho no vizinho país do Norte, têm um denominador comum: a relação do México com os Estados Unidos.
Numa das primeiras ações, nos dois meses de mandato, Fox promoveu uma resolução judicial para que os narcotraficantes possam ser extraditados para os Estados Unidos, onde está o maior número de consumidores de drogas do mundo e destino das drogas que passam e das que são produzidas no México. Esse foi apenas um primeiro sinal de boa relação que se prevê para os dois países. Habilidoso como poucos, Fox conseguiu que a primeira viagem internacional do novo presidente norte-americano, George Bush, fosse ao México.
E, como se isso fosse pouco, no dia 5 deste mês, dois meses após assumir a Presidência do México, Fox anunciou o fim da Constituição Geral, promulgada em 1917, e propôs ao Congresso a discussão de uma nova Carta Magna, que, entre outros aspectos, inclua o julgamento político contra o presidente, a prestação de contas pelo governo e a reeleição para os cargos com escolha popular. Assim, para muitos mexicanos, Fox é o verdadeiro ‘‘milagre mexicano’’.
- RICARDO ALEMÁN é colunista político e co-autor de ‘‘Chiapas, o Levante’’

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