Fornecedores embutem alta; indústrias prevêem repasse
Rio de Janeiro A instabilidade do câmbio está atrapalhando os negócios da economia real e não há sinal de que o quadro se normalizará nesta semana, a última antes do primeiro turno da eleição presidencial. Com as incertezas sobre a cotação da moeda norte-americana, grandes indústrias partirão para uma revisão de estratégias agora em outubro. O dólar elevado já travou negociações de Natal, provocará aumentos de preços e prejudica até a exportação de alguns setores.
A cada semana o dólar muda de patamar. Conforme levantamento da Associação Nacional das Instituições de Mercado Aberto (Andima), nas últimas 16 semanas a cotação da moeda avançou doze vezes e caiu quatro. Partiu de uma cotação média R$ 2,61 na primeira semana de junho para R$ 3,70, na semana passada. Um avanço de 42% no período. Apenas da semana retrasada para a última, o salto da cotação média foi de 12%. A maior queda semanal foi de 6%, no início de agosto. Na sexta-feira, a moeda fechou com recorde absoluto no Real: R$ 3,875.
''Hoje, ninguém sabe o que fazer com os preços, mas se o dólar ficar neste patamar atual, eles (os fornecedores) vão querer repassar'', afirmou o vice-presidente comercial da Sendas, Nelson Sendas, que participou da exposição anual do setor e percebeu a perplexidade de fornecedores. Alguns aumentos, contudo, já estão definidos: os fabricantes de macarrão subirão o preço do produto em até 25%, já na semana que vem, por causa do câmbio e de problemas com estoques mundiais do trigo.
''Dólar alto é preço alto. Um câmbio assim prejudica os negócios no mercado interno'', comentou o diretor comercial da Copersucar, Carlos Poletini. Mesmo no mercado externo, o câmbio elevado pode causar danos. O diretor de vendas internacional da Sadia, Roberto Banfi, ainda reforça que ''um dólar assim atrapalha mais do que ajuda'', e cita que alguns produtores sem tradição na exportação acabam tentando se aproveitar do câmbio favorável, fazendo uma guerra de preços, com o risco de uma reação protecionista nos mercados-alvo.
O cenário de instabilidade tem levado a Johnson & Johnson a fazer revisões mensais sobre orçamentos e previsões para o mercado brasileiro, conta o diretor de vendas, José Vicente Marino. A próxima será em meados de outubro. Em setembro, a empresa havia praticado uma aumento médio de 5% na tabela de produtos. Insumos importantes para dois dos principais produtos da linha vêm do exterior: o látex dos preservativos e a polpa das fraldas descartáveis.
Além das negociações com os fornecedores e com o varejo, as indústrias, em períodos de instabilidade, enfrentam também uma espécie de ''queda de braço'' interna, entre o diretor financeiro e de vendas. Enquanto o primeiro apresenta planilhas de custos e projeções econômicas, o segundo dá as noções da evolução da demanda e os passos da concorrência. Quanto mais competitivo o setor de atuação, menores as chances de repasses automáticos de preços.





