Formigas, cigarras e o hábito de poupar
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 22 de agosto de 2007
Antonio Gonçalves Filho <br>Agência Estad 
São Paulo - Por que os ratos e as formigas estocam alimentos para o inverno em quantidades exageradas? Lá Fontaine encontrou, no século 17, um bom mas insuficiente argumento para justificar as razões de uma formiga previdente esnobar uma cigarra indolente, estocando mais folhas que poderia consumir em sua mísera existência.
Já o filósofo e economista Eduardo Giannetti busca, em ''O Valor do Amanhã'' (Companhia das Letras, 340 págs., R$ 47), explicações mais razoáveis para o comportamento mimético dos humanos. A avareza e a atitude perdulária são analisadas com igual dedicação em quatro capítulos do livro, que já teve cinco reimpressões.
Trata-se de um ensaio acessível sobre a natureza dos juros, presentes, segundo ele, em qualquer forma de troca intertemporal. Sua realidade, defende, não se restringe ao mundo das finanças. Está em todas as esferas da vida, espiritual ou material. Deixa-se de pecar para ganhar o céu. Ou pagar juros a Satã.
Giannetti procura, por meio de exemplos e situações da vida comum, mostrar como tudo se resume a uma troca entre o presente e o futuro. E não só na vida do homem. Ele registra a ocorrência de trocas intertemporais também no mundo natural, buscando as raízes dos juros nos lugares mais insuspeitados, como o fenômeno da fotossíntese. Os juros, conclui, são parte da ordem natural das coisas. Shylock, o vilão de O Mercador de Veneza, teria adorado ouvir isso, mas sofreria de um fenômeno chamado ''hipermetropia temporal'' por atribuir valor excessivo ao amanhã e subestimar o presente.
Esse é o maior mérito de seu livro: ele não despreza aspectos comportamentais e institucionais. Eduardo Giannetti arrisca indiretamente uma radiografia do Brasil, onde os juros são cronicamente altos e as taxas de poupança extraordinariamente baixas. Como crianças, viveríamos nós apenas para o presente?


