Pela primeira vez na história, um sindicato operário e uma empresa multinacional formularam juntos um comunicado à Imprensa, no qual revelam suas intenções de contribuir para que a crise econômica passe depressa. O diretor de Recursos Humanos da Ford, Carlos Augusto Marino, e o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Marinho, assinam a nota e também prometem, juntos, procurar um caminho para elevar o nível de competitividade da fábrica de São Bernardo.
O diretor da Ford afirmou ontem que está otimista em relação à adesão ao programa de demissões voluntárias, que substituiu o corte de 2,8 mil funcionários, ou 41% do efetivo na unidade do ABC. ‘‘O ideal é que as pessoas deixem a empresa satisfeitas e com condições de sobreviver lá fora’’, disse.
Segundo Marino, a decisão de suspender as demissões deveu-se em parte à responsabilidade social da empresa, diante de uma cenário econômico que sofreu deterioração muito forte de dezembro até hoje. E também a uma esperança de retomada da atividade nos próximos meses, com os projetos de renovação da frota, de escoamento de estoques via redução do IPI e do ICMS. ‘‘Não poderíamos ficar fora de um acordo setorial’’, disse. Uma das condições para obter a redução de impostos, segundo as negociações até agora entre governo e sindicato, é a manutenção do nível de emprego.
Ele também tem expectativa de melhora das exportações, por causa do mudança no câmbio. ‘‘Só não podemos imaginar que isso se dará do dia para noite e sem esforço’’, disse. ‘‘É necessário ganhar mercado e apresentar produtos cada vez mais atraentes, a um custo menor do que a concorrência.’’ Por isso, para Marino, a nova negociação com o sindicato, a partir do dia 22, deve necessariamente passar pela competitividade da fábrica, e não ficar restrita ao problema do número de empregados. O diretor da Ford afirmou que nenhum ponto da negociação está hoje detalhado e sequer discutido com profundidade. Ele disse que junto com o sindicato espera encontrar uma saída para o excedente.
A idéia de terceirizar alguns setores não diretamente relacionados à montagem de veículos, com aproveitamento dos empregados pelas novas empresas prestadoras de serviço, pode ser interessante, segundo ele.
Para fevereiro, a Ford programou produção bastante modesta: 3 mil veículos, apenas, para uma capacidade instalada de 25 mil veículos por mês. ‘‘Infelizmente o mercado não tem apresentado recuperação’’, disse Marino. Até o dia 20, segundo concessionários, entre lojas e pátio existiam cerca de 25 mil veículos em estoque.
Para Marino, se todos os projetos em negociação para o setor sairem da crise forem adotados, a produção de veículos no País este ano alcancará no máximo a marca do ano passado, de 1,6 milhão de unidades. Em 1997, ultrapassou 2 milhões.

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