Foi unânime a decisão de anunciar que estamos em recessão, diz economista do comitê que data ciclos no Brasil


SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A decisão de definir o primeiro trimestre de 2020 como início de um novo período de recessão da economia brasileira foi tomada por unanimidade e com base em dados que não mostram nenhuma divergência, de acordo com o professor do Insper Marco Bonomo, um dos oito economistas que fazem parte do Codace (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos).

O comitê, ligado ao Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), divulgou nesta segunda-feira (29) a data do início de uma nova recessão que deverá ser a mais profunda da série histórica iniciada nos anos 1980, embora possa ser curta.



Segundo Bonomo, a economia brasileira já tinha começado o ano em ritmo lento e foi "atingida por um meteoro" em março que colocou imediatamente vários indicadores econômicos em terreno negativo.

"Não houve divergência. Está claro que a gente está em uma recessão", afirmou em entrevista à Folha. "O impacto foi bem espalhado. Uma recessão cavalar dessas, de alguma forma, facilita nosso trabalho, infelizmente."

PERGUNTA - Quais foram os dados mais importantes para que o comitê definisse o início de uma nova recessão no primeiro trimestre de 2020, quando os efeitos da pandemia ainda eram mais restritos e havia apenas um trimestre de queda na atividade?

MARCO BONOMO - Nos números de março você já vê o reflexo da pandemia. Em janeiro e fevereiro, a recuperação da economia andava meio de lado. Se tivesse tido uma recuperação mais forte naqueles dois meses, o trimestre inteiro não ia ter um resultado ruim assim. O monitor do PIB do Ibre indicou uma queda de 5,1% em março e crescimento de 0,3% em janeiro e 0,2% em fevereiro. Isso compõe uma queda do PIB já expressiva no primeiro trimestre.

P. - Como os dados a partir de abril foram considerados na datação?

MB - Os dados do monitor do PIB indicam uma queda de 9,1% em abril. Se a gente tivesse uma queda do PIB de 1,5% no primeiro trimestre [dado do IBGE], mas não soubesse que no segundo vai dar uma recessão enorme, não estaria datando [a recessão atual]. Como não há a menor dúvida de que vamos ter uma queda expressiva no segundo trimestre, a gente tem confiança para datar essa recessão desde o primeiro trimestre deste ano.

P. - Quais os conceitos utilizados pelo Codace para definir recessão? Vocês destacariam algum dado na recessão atual?

MB - A gente olhou os vários setores da economia, de forma desagregada. A gente olhou também massa salarial, consumo das famílias, formação bruta de capital, mas o cenário era tão claro que todos os indicadores convergiam para a mesma coisa. Dessa vez está muito claro, não há divergência de indicadores. Quando você tem um começo suave de recessão ela é mais difícil de datar. Agora não. Um meteoro bateu aqui em meados de março e causou destruição total. O impacto foi bem espalhado. Uma recessão cavalar dessas, de alguma forma, facilita nosso trabalho, infelizmente.

P. - Houve alguma divergência na análise dos dados atuais pelos membros do comitê?

MB - Não houve divergência. Está claro que a gente está em uma recessão. Para as pessoas que participaram dessa reunião não há a menor dúvida. A gente analisa tudo, inclusive algorítimos de datação, olhando o futuro também, mas a datação se baseia em informações que são robustas e que não dependem de previsões e coisas que ainda não aconteceram. A datação tem um caráter muito menos especulativo do que qualquer projeção.

P. - Qual a magnitude da recessão atual até o momento?

MB - A magnitude é sempre o dado do PIB [divulgado pelo IBGE]. Na hora de definir se tem uma recessão, a gente olha para um conjunto de indicadores da economia como um todo, mas a gente não dita qual é o PIB. Quando a gente coloca algum número, é simplesmente a evolução do PIB. Não é um número que a gente produz. A gente produz as datas.

P. - Qual a perspectiva de duração da recessão atual? E qual seria a magnitude dela em termos históricos?

MB - Nossa tarefa não é prever, é datar o que aconteceu. A recessão de 2008 e 2009 foi a mais profunda, apesar de ser curta [seis meses], com uma média anualizada por trimestre de -10,8% e acumulada de -5,5%. É muito provável que essa recessão agora, em termos de intensidade, mesmo que seja ela curta, seja a mais intensa da nossa história. Deve superar a de 2008 e 2009. A recessão 2014-2016 teve uma queda anualizada média de 3,2% por trimestre, acumulada de 8,6%.

P. - Poderemos ter a recessão mais profunda da história também em termos de queda acumulada, considerando as projeções de retração de PIB em torno de 10% no segundo trimestre?

MB - Sim.

P. - Vocês divulgara também novos dados sobre a última recessão, a mais longa da série histórica. Houve alguma revisão?

MB - Havia uma dúvida em relação ao mês que ela teria começado. Os indicadores não são tão claros. A gente teve de se debruçar e chegou à conclusão de que março de 2014 foi quando se deu o início daquela recessão. O nosso hábito é primeiro datar primeiro por trimestre. Só agora, por exemplo, a gente fez a datação mensal da recessão de 2014-2016. A gente procura ser cauteloso e datar uma coisa em que haja consenso e com dados bem claros. Essa última, tem termos de meses, foi a recessão mais longa que a gente já teve, com 33 meses.

P. - Futuramente, é possível que vocês façam uma datação mensal para determinar em qual mês do primeiro trimestre de 2020 teve início a recessão atual?



MB - A gente certamente vai fazer a datação mensal em algum momento. Mas vamos esperar um pouco mais para fazer isso.

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