Brasília - Duas décadas depois do plano econômico que por um período o levou a atingir picos de popularidade, José Sarney - o vice que assumiu o governo herdado de Tancredo Neves - admite que sua situação era frágil quando tomou posse. Ele avalia que o sucesso inicial do Cruzado serviu para legitimá-lo no cargo. ''Foi preciso ter coragem, pois sabia que minha cabeça seria levada à guilhotina se houvesse um insucesso'', conta ele nesta entrevista.
Agência Estado - Como surgiu a idéia do Cruzado?
José Sarney - Quando assumi, desejei que tivéssemos um plano contra a inflação. Eu pensava na minha legitimação e tinha plena consciência de que, sem razoável estabilidade na economia, não teríamos condições de fazer a transição democrática.
AE - Seu governo estava sob pressão?
Sarney - A inflação era de 9% ao mês. Mas a tendência era de subida, principalmente porque estávamos em efervecência social. Enfrentamos 12 mil greves. Havia um plano em que se tentava aprisionar o governo pelas reivindicações. E o governo tinha de se libertar.
AE - Então o Cruzado veio para dar sustentação política ao presidente?
Sarney - O Cruzado foi um tratamento de choque que se tornou a coisa mais importante na tentativa de mudança da economia brasileira. Houve o engajamento de toda a sociedade e o exercício da cidadania que não existia até aquele tempo.

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