Agência Estado
De Washington
O Fundo Monetário Internacional (FMI) mobilizará 14% de suas reservas em ouro para a constituição de um fundo destinado a financiar os países pobres. O FMI tem 100 milhões de onças de ouro, cujo valor de mercado é da ordem de US$ 25 bilhões. Mas o ouro está perdendo mercado e diminuindo sua importância como reserva de valor. ‘‘Vender ouro era um tabu’’, observou o diretor-geral do FMI, Michel Camdessus.
No começo dos anos 80, as reservas em ouro equivaliam a 50% do total das reservas no mundo. Esse percentual declinou para 14% no final de 1998, segundo o relatório anual do FMI. Apenas em 1998 o ouro perdeu 5% do valor, enquanto as reservas físicas do metal aumentavam 8%. As reservas de ouro – cerca de US$ 260 bilhões, atualmente – equivalem a 23% das reservas dos países desenvolvidos e menos de 5% das reservas dos países em desenvolvimento.
A operação com o ouro do FMI não deverá alterar o mercado do metal, pois será feita com os bancos centrais. O ouro do Fundo está nos balanços do FMI pelo seu valor de aquisição, US$ 35 a onça. A negociação com os bancos centrais permitirá que o FMI atualize o valor dessas reservas, realizando um ganho de capital. O dinheiro será decisivo para criar uma linha de quatro bilhões de SDRs (Direitos Especiais de Saque, a moeda do FMI), equivalente a US$ 5,4 bilhões.
‘‘O novo fundo permitirá salvar países que estão lutando contra os pagamentos atrasados’’, declarou o diretor geral do FMI, Michel Camdessus, em sua primeira entrevista à imprensa às vésperas da abertura oficial da 54ª assembléia anual do FMI-Banco Mundial, que ocorrerá em Washington até o final deste mês. Camdessus criticou os bancos que concederam os empréstimos para os países pobres. ‘‘Os países têm de sair do buraco negro dos empréstimos feitos por banqueiros irresponsáveis, que criaram situações insustentáveis’’.
A mobilização do ouro do FMI depende somente de alguns acertos ‘‘finais’’, disse Camdessus. Ela faz parte da mudança na filosofia no FMI, que passou a dar mais ênfase a questões sociais – muito mais críticas nos países pobres. A mudança passa pela criação da chamada ‘‘nova arquitetura do sistema financeiro internacional’’, que pretende aumentar a segurança das operações financeiras, sejam governamentais, sejam privadas. ‘‘Ela pressupõe um aumento substancial da transparência das operações’’, declarou Camdessus.
Seus pontos fundamentais são: promover transparência e responsabilização, desenvolvendo e disseminando padrões de boa conduta aceitos internacionalmente; fortalecimento dos sistemas financeiros, inclusive de supervisão dos mercados financeiros; liberalização organizada dos mercados de capitais; mobilização do setor privado para a solução das crises; evolução para regimes cambiais apropriados; adequação dos recursos do FMI; criação de recursos para as Linhas de Crédito de Contingência (Contingent Credit Line, ou CCL) – para evitar o risco de contágio. Este é o maior problema para os países em desenvolvimento e afetou Brasil e Rússia nos últimos meses. A ameaça mais recente vem do Equador, que não honrou pagamentos internacionais. ‘‘Qualquer solução deve passar pela negociação com os credores’’, disse Camdessus.

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