Michel Camdessus, diretor-gerente do FMI (Fundo Monetário Internacional), acenou ontem com a privatização dos bancos federais brasileiros (o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal). Camdessus disse que os estudos que o governo brasileiro está fazendo a respeito do papel dos bancos federais ‘‘incluem a privatização como uma das opções’’. Acrescentou: ‘‘Essa opção será tomada com muita seriedade (pelas autoridades brasileiras).
Mais tarde, em entrevista coletiva a um grupo de jornalistas latino-americanos, Teresa Ter-Minassian, subdiretora do FMI para o hemisfério Ocidental, responsável por Brasil e Argentina, avançou mais no assunto. Primeiro, disse que a privatização dos bancos federais ‘‘não é, de maneira alguma, uma decisão do governo nem uma imposição do FMI ou de quem quer que seja’’.
Depois, acrescentou que o programa acertado pelo Brasil com o Fundo inclui ‘‘diminuir e racionalizar o papel do setor público no sistema financeiro’’. Fechou assim o raciocínio: ‘‘Esse objetivo é um dos fatores que nos dá confiança na recuperação da economia brasileira’’. Para a subdiretora do FMI, a racionalização do setor público, em matéria de bancos, pode passar por fusões ou venda de participações.
Camdessus tocou no tema das privatizações em sessão especialmente convocada pela equipe econômica brasileira para apresentar o seu novo programa, aproveitando a grande presença de banqueiros e investidores para a assembléia-geral do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Mas as autoridades brasileiras presentes não tocaram no assunto. Eram os ministros Pedro Malan (Fazenda), e Paulo Paiva (Orçamento), Armínio Fraga, presidente do Banco Central, e o embaixador na França, Marcos Azambuja. Camdessus e também Enrique Iglesias, presidente do BID, reforçaram a equipe, na sua exposição, como mais uma demonstração do apoio da parte oficial à política que o Brasil está adotando.
Desempenharam o papel à perfeição. ‘‘O ponto de inflexão (da economia brasileira) virá mais cedo do que muita gente pode acreditar hoje’’, declarou Iglesias. ‘‘Sou como são Tomé: acredito (no cumprimento do acordo com o FMI), porque vejo a determinação do presidente Fernando Henrique Cardoso, do ministro Pedro Malan e de Armínio Fraga’’, reforçou Camdessus.
Determinação que ele acha tão forte que brincou, enquanto os expositores definiam seus lugares à mesa: ‘‘Vou ficar na extrema-esquerda’’ (em relação a Malan e Fraga). Ficou mesmo, posição que é o antípoda da que habitualmente se atribui ao FMI.
Camdessus afirmou acreditar que, rapidamente, as taxas de juros poderão cair no Brasil e que ‘‘estão postos todos os mecanismos para evitar a volta da inflação’’. O eixo da apresentação, como era previsível, foi o ajuste fiscal. As autoridades brasileiras sentiram que ainda há desconfiança, entre os investidores, a respeito da sua efetiva implementação.
Por isso mesmo, Malan fez questão de enfatizar que o ajuste fiscal ‘‘não é uma promessa para o futuro’’, mas um fato, tanto que o superávit primário de 3,1% do PIB, acertado com o Fundo, ‘‘está claramente ao nosso alcance’’.
Se estiver mesmo, logo ficará claro: Teresa Ter-Minassian disse que os próximos testes do país, no monitoramento a que o FMI submete sua economia, será no fim de março, justamente com a avaliação do superávit primário.

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