Graças aos recursos de US$ 3,150 bilhões emprestados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco Mundial (Bird), o Brasil obteve um superávit nas contas externas no mês de junho. No resultado global do balanço de pagamentos, onde estão registradas todas as operações de entrada e saída de dinheiro do País, o saldo do mês foi positivo em US$ 1,849 bilhão. Mas as chamadas transações correntes, parte mais importante do balanço porque indica a dependência que o País tem do financiamento externo, ficaram deficitárias em US$ 2,112 bilhões.
As transações correntes referem-se às operações de comércio e serviço que o Brasil realiza com outros países. Nelas o comércio é representado pela balança comercial, enquanto os serviços refletem as despesas e pagamentos feitos ao exterior, como os juros de dívidas ou gastos com cartões de crédito que os brasileiros fazem em viagens internacionais
O déficit registrado em junho foi inferior ao de maio, que ficou em US$ 2,165 bilhão, e ao de junho do ano passado, quando havia sido de US$ 2,447 bilhões. O resultado, porém, não reflete uma melhora da situação do País.
O chefe do Departamento Econômico (Depec) do Banco Central, Altamir Lopes, destacou que ‘‘o aumento da cotação do dólar e os reflexos da crise de energia na economia têm contribuído para reduzir este déficit’’. A remessa de lucros e dividendos de empresas estrangeiras instaladas no Brasil, admitiu, foi influenciada por estes dois fatores e caiu de US$ 557 milhões, em junho de 2000, para US$ 371 milhões no mês passado. ‘‘Além do dólar estar mais caro, a retração no nível de atividade está gerando menos lucros às empresas’’, afirmou. Com isso, elas mandam menos dinheiro para fora.
A expectativa do governo é encerrar o ano com um déficit de US$ 26,5 bilhões nas transações correntes. O acumulado no primeiro semestre chegou a US$ 13,343 bilhões, o correspondente a 5,05% do Produto Interno Bruto (PIB). Nos primeiros seis meses de 2000, o déficit em transações correntes foi de US$ 11,168 bilhões representando a parcela de 3,84% do PIB. Diferentemente do ano passado, porém, quando o resultado negativo do semestre foi integralmente coberto por investimentos diretos – aqueles recursos que são aplicados no País por prazo indeterminado –, este ano somente a parcela de US$ 9,881 bilhões pôde ser financiada com este dinheiro.
Com base nos ingressos de julho, que poderão superar US$ 2 bilhões, Lopes garante que ‘‘fica confortável’’ prever que os investimentos diretos até o final do ano chegarão a US$ 20 bilhões. Até ontem, havia ingressado US$ 1,797 bilhão, sendo US$ 457 milhões da privatização da Sasse, a seguradora da Caixa Econômica Federal, que foi vendida para a francesa CNP Assurance. Até o mês passado, o BC trabalhava com a expectativa de US$ 18 bilhões para os investimentos diretos este ano.
Com a nova projeção de Lopes, ainda faltarão US$ 6 bilhões para o financiamento integral do déficit em transações correntes. Mas o governo poderá usar reservas internacionais para cobrir estas despesas. Nos 12 meses acumulados até junho, o déficit em transações correntes chegou a US$ 26,812 bilhões, ou 4,71% do PIB. Para atingir a meta do final do ano, o chefe do Depec do BC espera um melhor desempenho da balança comercial.
Ele acredita que os efeitos da crise sobre a balança ocorram com a retração das importações e aumento das exportações. No item de serviços, Lopes lembra que as viagens internacionais também poderão ter uma redução por causa do dólar mais caro. Em relação a junho do ano passado, houve pouca retração, passando de US$ 231 milhões para US$ 226 milhões. Nos primeiros 26 dias de julho, o resultado ficou negativo em US$ 143 milhões.

mockup