O modelo de câmbio fixo da Argentina continua sendo tratado no país como um tabu. Mas, no Brasil, analistas acreditam que uma saída para a crise argentina pode incluir o fim do sistema de ''currency board'', que mantém o peso atrelado ao dólar desde o início dos anos 90.
Na avaliação do consultor Nathan Blanche, da consultoria Tendências, as declarações do presidente americano George Bush, condicionando uma ajuda à Argentina à obtenção do déficit zero, podem precipitar uma ruptura econômica na Argentina. Para o consultor, a posição do presidente dos EUA aumentou no mercado a percepção de que o governo americano e o Fundo Monetário Internacional (FMI) podem estar condicionando um socorro para a Argentina a uma mudança de modelo econômico.
Nathan observa que será difícil para a Argentina cumprir as exigências do presidente americano. A recessão é obstáculo ao déficit zero e, ainda que o ajuste fiscal seja cumprido, o aprofundamento da recessão afugenta ainda mais os investidores e bancos estrangeiros. E os bancos, cuja participação no pacote de ajuda os EUA também estariam exigindo, estão reticentes em colocar mais dinheiro na Argentina por não acreditarem na retomada do crescimento.
Segundo Nathan, dificilmente a equipe argentina que está negociando com o FMI voltará com uma ajuda sem uma condicional importante, que envolva mudanças sérias na economia. Economista de formação, com longa experiência como operador no mercado cambial, Nathan observa que a solução via desvalorização clássica, como a ocorrida no Brasil e em outros emergentes nos anos 90, não existe para a Argentina. Como a moeda do país é conversível ao dólar na paridade de 1 para 1 e a maioria dos depósitos já está na moeda americana, na prática, a Argentina não possui moeda para desvalorizar.
O ex-diretor do BC e sócio-diretor da MCM Consultores, José Júlio Senna, também acredita que uma nova ajuda do FMI à Argentina só faz sentido se vier condicionada a uma mudança do regime cambial, seja ela qual for. Segundo ele, um novo empréstimo ajudaria na transição. ''O FMI não pode dar mais dinheiro para salvar o ''insalvável'', disse, ponderando que o modelo econômico argentino já demonstrou ser ineficiente para viabilizar o crescimento do país.
Se o FMI liberar um novo empréstimo à Argentina, sem que ocorra uma mudança estrutural, a discussão sobre a necessidade de reforma do Fundo, aberta após a crise asiática com um controverso debate entre economistas, seria inevitavelmente reaberta, desgastando a instituição.
Embora não se tenha informações sobre o que de fato está sendo negociado entre a Argentina e o FMI, declarações de autoridades dos EUA sugerem que o socorro não virá nos moldes de pacotes anteriores, como o de dezembro de 2000, que pretendia garantir uma blindagem financeira à Argentina. (AE)

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