O pacote de socorro financeiro do Fundo Monetário Internacional (FMI) à Argentina, anunciado na terça-feira passada, foi apenas um remédio paliativo para o desfecho inevitável da crise argentina: a reestruturação forçada da dívida após a declaração de uma moratória dos pagamentos. A opinião é de um dos Republicanos mais respeitados pela equipe econômica da administração Bush, o professor de finanças da Universidade de Columbia, Charles W. Calomiris. ''Esse pacote do FMI não foi elaborado para resolver o problema da Argentina. O seu único objetivo e intenção foi o de postergar o colapso financeiro do país por dois ou três meses'', afirmou Calomiris em entrevista à Agência Estado.
''Simplesmente não era possível permitir que houvesse um colapso financeiro antes das eleições legislativas de outubro.'' Ao liberar os US$ 5 bilhões de imediato para reforçar as reservas e evitar uma sangria maior dos depósitos bancários, a Argentina ganha tempo para preparar os termos de uma reestruturação forçada e compulsória da dívida.
''Além disso, a economia dos Estados Unidos ainda está mostrando sinais de fraqueza. Um aprofundamento da crise na Argentina, e com consequências para o Brasil, poderia agravar uma depreciação do dólar no mercado internacional e reduzir o fluxo de capitais para a economia norte-americana'', explicou o acadêmico. Ou seja, o ''timing'' não permite neste momento desligar a tomada da ajuda a Argentina. Apesar de negar ter informação ou contato próximo com o governo norte-americano ou com a equipe econômica argentina, Calomiris disse que as conversações para valer entre os Estados Unidos e a Argentina de como realizar a reestruturação compulsória sob o aspecto legal começaram há dois meses. ''Essas conversações estão acontecendo, porém levará um pouco mais de tempo para que os envolvidos sintam-se confortáveis sobre como os procedimentos legais irão ocorrer'', disse.
Uma das primeiras providências a serem tomadas por parte do governo argentino, segundo Calomiris, será proteger os ativos do país no exterior de ações de credores na Justiça norte-americana ou na Europa, quando o ''default'' for declarado. ''Em alguns casos, os argentinos terão até de repatriar alguns desses ativos'', disse. O segundo passo, prosseguiu o acadêmico, será a declaração de uma moratória nos pagamentos. A partir daí, o governo argentino terá de montar um comitê consultivo informal com os maiores credores da dívida. ''Então, num processo de leilão, o governo argentino aceitará lances até que os lances para a troca dos títulos atinjam um preço razoável e aceitável para a Argentina'', explicou.
A reestruturação da dívida demoraria até seis meses para ser concluída a partir do momento que uma decisão para tanto fosse tomada pelo governo argentino juntamente com os credores. Para Calomiris, a Argentina somente conseguirá prosseguir pagando as suas obrigações com credores e retomar o crescimento se os investidores assumirem uma perda de 30% a 40% sobre um montante de US$ 90 bilhões (de uma dívida total de US$ 130 bilhões), que é o valor aproximado da dívida na forma de títulos e bônus soberanos.
Sobre a indicação de uma operação ''voluntária'' de troca da dívida que consta no anúncio do FMI do pacote de ajuda financeira a Argentina, o professor Calomiris disse que o texto do comunicado era a única coisa que o FMI poderia dizer neste momento.
''Qualquer menção agora de uma reestruturação forçada iria causar pânico no mercado'', disse. Calomiris também rebate veementemente as críticas de que o presidente norte-americano George W. Bush e o secretário do Tesouro, Paul O'Neill, teriam mudado a postura mais rígida em relação a socorros financeiros a países emergentes em crise, distanciando-se da política mais intervencionista do ex-presidente Bill Clinton e eliminando o chamado ''moral hazards'' ao não mais resgatar os investidores em apuros.

''As pessoas não entenderam as intenções dos Estados Unidos. Esse pacote do FMI não foi simplesmente um ''bail-out'' (resgate financeiro) ou um empréstimo novo cujo dinheiro será desperdiçado. Esse pacote foi apenas para dar liquidez para permitir que o setor privado tenha sua participação numa solução definitiva, até porque terá de assumir perdas'', explicou.


De acordo com Calomiris, o pacote do FMI para a Argentina está longe de ser um ''bail-out'' até porque os contribuintes dos Estados Unidos o maior acionista do FMI não estão assumindo ou financiando as perdas com uma eventual inadimplência da dívida argentina. O acadêmico explica que o pacote da Argentina não serve nem de teste para a nova arquitetura financeira mundial que deverá emergir com base num novo conceito do governo Bush sobre os programas de ajuda do FMI. ''Essa liberação de recursos para a Argentina é diferente de outras crises financeiras nos mercados emergentes'', comentou.
Nem mesmo no exemplo do socorro financeiro ao México, em 1994, o contribuinte norte-americano assumiu a dívida mexicana. ''O ônus do socorro financeiro, que correspondeu a 20% do PIB mexicano, foi pago pelo próprio contribuinte mexicano através do aumento da dívida pública do país. Tudo o que os Estados Unidos e o FMI fizeram foi dar um empréstimo-ponte de 18 meses que criou liquidez para permitir uma recuperação mais ordeira do sistema financeiro mexicano''.

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