Os dados sobre o fluxo de passageiros no Aeroporto Governador José Richa, em Londrina, contrariam a tendência de expansão de viajantes domésticos apontada pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil). No período de janeiro a maio de 2026, a agência reguladora registrou o recorde histórico de 42 milhões de viajantes, alta de 6% sobre o mesmo período do ano passado. No terminal londrinense, no entanto, o número de pessoas que embarcaram ou desembarcaram de voos nacionais caiu 8,2% nos cinco primeiros meses deste ano, encerrando maio com o acumulado de 278.071 passageiros. Em 2025, foram 303.117 no mesmo intervalo.

A quantidade de usuários que circulou pelo aeroporto de Londrina entre janeiro e maio é a menor registrada desde 2023, primeiro ano em que a Motiva administrou o terminal por todos os 12 meses. Naquele ano, no período avaliado, 289.040 viajantes passaram pelo terminal local, 3,7% a mais do que em 2026.

Embora a estatística desanime o setor produtivo londrinense, que nos últimos anos tem se empenhado para impulsionar as movimentações aéreas locais, o recuo observado no aeroporto do município não é um caso isolado entre os terminais aeroportuários do interior do Brasil.

Dos 17 terminais nacionais operados pela Motiva, nove estão em cidades do interior do país e entre eles, quatro tiveram redução no número de passageiros domésticos de janeiro a maio. Além de Londrina, o fluxo de viajantes também caiu no aeroporto de Imperatriz (MA), uma retração de 1,35%, em Pelotas (RS), onde o recuo foi bem mais acentuado, de 23,5%, e em Joinville (SC), terceiro maior município da Região Sul do país e sempre utilizado como comparativo com Londrina quando o assunto é desenvolvimento econômico. O índice de queda de passageiros no terminal catarinense foi de 8,6%.

Os outros cinco terminais localizados no interior sob a gestão da Motiva são Bagé (RS), para o qual não há informações operacionais desde maio de 2024, Foz do Iguaçu (PR), Navegantes (SC), Petrolina (PE) e Uruguaiana (RS). Os municípios do Oeste paranaense e do Litoral catarinense são polos turísticos e nos cinco primeiros meses deste ano registraram alta de 27,2% e 3,8%, respectivamente. Foz do Iguaçu encerrou os cinco primeiros meses de 2026 com uma movimentação de 1.140.247 passageiros domésticos contra 895.806 no ano passado.

Petrolina teve expansão de 19,7% no período, com 229.589 passageiros circulando pelo terminal aéreo. A terceira maior cidade de Pernambuco tem papel estratégico como polo do agronegócio, com destaque para a produção de frutas, e grande força no turismo regional no Vale do São Francisco. As rotas aéreas para o município, ao contrário de outras cidades do interior brasileiro, estão crescendo.

A concessionária Aena Brasil administra 17 terminais nacionais, nos estados de Alagoas, Ceará, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, São Paulo e Sergipe. Seis deles estão localizados em capitais e 11 no interior. Entre as capitais, apenas um, o de Campo Grande (MS), registrou retração, de 11,2%. No interior, a variação negativa foi observada em sete aeroportos, com destaque para Corumbá (-48,6%) e Ponta Porã (-20,9%), no Mato Grosso do Sul, e Uberaba (MG), com retração de 35,1%.

Os dados das administradoras dos aeroportos mostram que embora a demanda de passageiros esteja em elevação, como identificou a Anac, as atividades aeroportuárias vêm caindo no interior do país. Em entrevista recente à FOLHA, a gerente de Negócios Aéreos da Motiva, Graziella Delicato, comentou esse movimento do mercado aéreo brasileiro e como funcionam as negociações com as companhias de aviação para a expansão das rotas. Ela explicou que a concessionária apresenta os seus ativos e ressalta as vantagens de operar nos seus aeroportos, mas a decisão das empresas aéreas tem forte relação com o PIB (Produto Interno Bruto) da região, com o seu desenvolvimento econômico, com o perfil do viajante e com os indutores de demanda.

“Londrina tem o quarto maior PIB do Paraná, a cidade tem buscado se desenvolver na indústria, mas hoje, 77,9% da economia de Londrina são trilhados em serviços e comércio e esse não é, necessariamente, um setor que viaja muito no modal aéreo. A parte de serviço de Londrina é muito focada na área médica, que é regional. As pessoas vêm de carro para procurar atendimento médico. Elas não vêm de outras regiões do país para se tratar em Londrina”, analisou Delicato.

Nos últimos anos, a Motiva tem atuado em conjunto com o setor produtivo local e o poder público para tentar ampliar a oferta de voos para a cidade. No ano passado, quando a Azul anunciou a suspensão de um dos dois voos diretos diários na rota Londrina-Curitiba, a concessionária e a Comissão de Infraestrutura se empenharam para restabelecer a linha, o que aconteceu no início deste ano. Mas Delicato avalia que uma expansão mais sólida das operações aéreas passa pela consolidação de outros setores econômicos, como a indústria e o turismo de eventos, por exemplo. “É isso o que vai fazer o crescimento aéreo do município.”

Outra dificuldade apontada pela gerente da Motiva é o alto custo das operações aéreas no país, o que mantém o preço das passagens em um patamar elevado. “Nós temos um teto que o passageiro está disposto a pagar no mercado aéreo. A partir daquele teto, ele vai para o rodoviário. O que a gente tem visto muito é o crescimento do número de linhas de ônibus”, comentou Delicato. “Eu digo que o maior concorrente do aeroporto de Londrina para São Paulo é a (rodovia) Castelo Branco.”

Em novembro do ano passado, a ABR Aeroportos do Brasil, a associação representativa dos aeroportos federais concedidos, publicou o relatório Análise de mercado de transporte aéreo no Brasil: Oportunidades, entraves e desafios, no qual concluiu que os altos custos e as restrições estruturais são os principais fatores que limitam o potencial de crescimento do mercado nacional de transporte aéreo. Entre os entraves identificados pela entidade, estão a pressão cambial nas operações de leasing, os altos custos com combustível devido às altas taxas de ICMS, a litigação excessiva e as barreiras à concorrência, as restrições legais à entrada de LCCs, sigla em inglês para designar as companhias aéreas de baixo custo, insegurança jurídica, mudanças legais e judiciais que afetam os custos, como alterações nas leis e políticas de cálculo de IPTU, por exemplo, instabilidade econômica, baixo poder de compra dos consumidores e a percepção de parte da população de que voo é luxo.

Alguns dos efeitos da extensa lista de desafios no setor, apontou a ABR, são a falta de acesso das classes sociais médias ao transporte aéreo, especialmente C e D, dificuldade de desenvolvimento de mercados regionais e menor capacidade de atrair investidores, companhias aéreas e LCCs para o mercado. Algumas das possíveis soluções, propôs a associação, são políticas para garantir a conectividade regional, incentivos à população de baixa renda, reforma tributária, transição energética, foco regulatório na competitividade e investimento na promoção do turismo, com a melhoria da infraestrutura turística e qualificação do setor.

Delicato destacou a atuação do governo do Paraná na redução dos custos da aviação na tentativa de ampliar a oferta de voos regionais. No ano passado, um decreto instituiu a isenção de ICMS sobre a aquisição de bens destinados à fabricação de SAF (Combustível Sustentável de Aviação), biometano e biogás, e o Estado também reduziu a base de cálculo e alíquotas incidentes sobre o QAV (Querosene de Aviação), medida condicionada à contrapartida de expansão da malha regional via programa Paraná Competitivo. “O Paraná atua muito forte nas negociações com as três empresas (Azul, Gol e Latam), para aumento da malha aérea no Estado, em troca da redução do ICMS do QAV. E isso não só para os nossos aeroportos, mas para todos os aeroportos do Estado. Isso é super importante.”

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