São Paulo Para o investidor estrangeiro, parece mais seguro investir em países como Casaquistão, Tunísia, Trinidad e Tobago, Peru, Panamá ou Colômbia, do que colocar seu dinheiro no Brasil. Segundo os ratings das agências de classificação de risco, todos esses países são considerados investimentos menos arriscados. Em outro índice que aponta a segurança para os investimentos, o risco país, o Brasil também faz feio. Nações semelhantes ao Brasil, como Rússia, África do Sul e México, têm risco país bem menor.
Os analistas insistem que fazer a lição de casa seguir a ortodoxia macroeconômica e manter os fundamentos sólidos é o caminho para levar o Brasil a ter um risco e um rating melhores. Mas cada vez mais economistas acreditam que fatores técnicos ou meras flutuações do mercado pesam mais nas decisões do que os fundamentos.
Na terça-feira, o risco da Argentina, país que deu o calote mais espetacular da história há apenas três anos, estava em 403 pontos. Enquanto isso, o risco do Brasil, que não decretou moratória recentemente e tem superávits primários crescentes, estava em 399. ''É frustrante'', diz Pedro Barbosa, administrador do Principia Asset Management. ''A Argentina faz tudo que contraria os compêndios de Chicago tem tarifas represadas, juros negativos, inflação alta, deu calote na dívida e, mesmo assim, seu risco está colado no brasileiro.''
Segundo Dráusio Giacomelli, estrategista responsável pela América Latina no JP Morgan, há uma explicação técnica para a queda do risco argentino. Depois da reestruturação da dívida argentina, o endividamento bruto passou de 123% do PIB para cerca de 84% do PIB (contabilizando débitos atrasados e esqueletos) e o vencimento médio está em 30 anos.
Já a dívida brasileira bruta está próxima de 70% do PIB, mas tem vencimento médio de 10 anos. O Brasil tem US$ 6 bilhões de amortizações por ano, enquanto a Argentina tem US$ 500 milhões. ''A probabilidade de calote na dívida reestruturada da Argentina é pequena'', diz Giacomelli. Além disso, muitos investidores precisam manter um determinado porcentual de títulos argentinos em carteira, simplesmente para seguir a composição do Embi.
Mas Giacomelli ressalta que o Brasil tem fundamentos melhores que a Argentina. ''Mesmo quem compra Argentina e vende Brasil sabe disso'', diz. ''O problema é que os investidores são míopes e só estão olhando para as necessidades de financiamento da Argentina que, no momento, são menores que as do Brasil.''
A demora do Brasil em ser promovido incomoda. A Rússia deu um calote em sua dívida em 1998. Hoje, é 'grau de investimento' e tem risco de 145 pontos, diante dos 399 do Brasil. O México se graduou em 8 anos e a África do Sul, em 6. Panamá e o Peru também têm classificação melhor que o Brasil.
A argumentação das agências é que a Rússia está sentada em uma montanha de petróleo. Também estava quando deu o calote, mas hoje o barril custa cinco vezes mais. Além disso, o país conseguiu uma grande redução da relação dívida líquida/PIB (caiu para 12%, diante de 51% do Brasil). Panamá e Peru também têm dívidas menores.
Para analistas, o Brasil não deve se tornar grau de investimento antes de 2007. Lisa Schineller, diretora da Standard & Poor's, não fala em datas, mas afirma que faltam algumas medidas para o Brasil ser promovido. Segundo ela, é necessário reduzir a parcela da dívida do País indexada pela Selic. Além disso, o governo tem pouco espaço para cortar gastos, já que a maioria das despesas é vinculada ou comprometida com salários.
Apesar das explicações, alguns analistas continuam achando que o Brasil é injustiçado. ''Não dá para entender por que o Brasil ainda não está no mesmo nível que Rússia e México'', diz Alex Agostini, economista da GRC Visão. ''Se seguirmos os ratings ou o risco, o Brasil é mais perigoso do que a Colômbia, país dominado pelo narcotráfico'', diz Luiz Forbes, diretor da corretora López Léon.
Nem a queda do risco Brasil e a aparente imunidade à crise política acalmam os críticos. Para alguns, a redução do risco não é uma recompensa pelos bons fundamentos, mas sim resultado da liquidez internacional, que aumentou a demanda por papéis de todos os emergentes. Prova disso é que também caiu o risco da África do Sul e Venezuela.

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