''É uma passagem da vida que a gente só quer esquecer. Foi uma tristeza, um sufoco que vivi'', diz o engenheiro agrônomo aposentado Gunther Seifert sobre o confisco da poupança durante o Plano Collor, que completou 20 anos ontem. Seifert é um dos milhares de brasileiros que ainda tenta na justiça recuperar um pouco do que perdeu na época. Ele conta que todo o dinheiro que tinha estava na poupança no dia em que viu a então ministra da Fazenda Zélia Cardoso de Melo anunciar na TV que os valores estariam bloqueados. ''O pior é que um dia antes pensei em retirar todo o dinheiro e até comentei com meu chefe, pois tudo indicava que o Collor (Fernando Collor de Melo) iria mexer nas contas bancárias. Só que não fiz isso. No dia seguinte me senti totalmente aleijado'', relata.
Hoje, aos 64 anos, Seifert não se lembra do valor exato que tinha aplicado em ''umas dez poupanças''. ''Tinha bastante (dinheiro). A poupança chegava a render 80% de juros por mês, era uma loucura. Para quem tinha o que poupar, a inflação era uma coisa boa'', destaca. Depois do confisco, porém, ele conta que deixou de pagar as prestações de um imóvel num condomínio comercial que estava sendo construído no centro de Londrina. ''As obras ficaram paradas durante um ano. Ninguém tinha mais dinheiro''.
O aposentado lembra da ansiedade das pessoas na tentativa de vender o ''patrimônio'' para levantar recursos. ''Eu via os bons negócios e, assim como muita gente, não podia fazer nada. Eram imóveis, terras, muitas vezes pela metade do preço. Quem tinha algum dinheiro virou herói'', conta.
O contador João Martins de Souza Filho também tem tristes lembranças do Plano Collor. ''Fiquei pobre da noite para o dia'', diz ele, que também tenta recuperar as perdas na Justiça desde 1995. Hoje, ele calcula que teria para receber ''algo correspondente a R$ 35 mil''. Martins conta que seu prejuízo na época só não foi maior porque tinha comprado um ''imóvel grande'' pouco tempo antes do Plano Collor. ''Tive clientes, parentes, amigos que tiveram muito dinheiro bloqueado. Não vi ninguém morrer do coração, mas foi um desespero geral. A gente passou noites sem dormir''.
Terminou segunda-feira o prazo para entrar na Justiça para recuperar perdas causadas pela falta de correção dos valores inferiores a 50 mil cruzados novos, que ficaram nas contas bancárias ou em cadernetas de poupança. Dos valores superiores a 50 mil cruzados novos, o prazo expirou em 1995.
O advogado José Carlos Vieira ingressou com várias ações na Justiça referentes às perdas do Plano Collor. Ele diz que a situação de ''boa parte'' já foi resolvida, mas alguns ainda aguardam a decisão do Supremo Tribunal Federal.

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