Agência Folha
De São Paulo
O espírito de Natal, que estimula o consumo no final de ano, e a crise econômica criaram no País o inadimplente natalino. É o consumidor que se endivida para comprar presentes em dezembro, não consegue pagar e decide um ano depois, embalado pelas festas, presentear familiares e amigos. A saída é renegociar o débito e contrair nova dívida. O balconista Vanderlei Claudenir de Souza, 27, de Belo Horizonte, gastou R$ 400 no final de 1998 para animar o Natal da namorada, da mãe e sobrinhos.
Em janeiro, a boate em que trabalhava fechou. Ficou sete meses desempregado. Resultado: os 12 cheques pré-datados que deu em dezembro de 1998 foram devolvidos sem fundos. Seu nome foi para a lista negra do SPC (Serviço de Proteção ao Crédito). Desde agosto, voltou a trabalhar e já conseguiu pagar pelo menos dois terços de sua dívida. Mas não vai deixar de ter um carnê para dar presentes para a família, afirma. As compras, diz ele, não vão passar de R$ 80.
Como Souza, há outros 4,6 milhões de brasileiros que engordaram o cadastro do SPC entre janeiro e novembro últimos, conforme dados da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas. O grosso desses devedores, analisa o economista Marcel Solimeo (da Associação Comercial de São Paulo), surge principalmente com as aquisições de final de ano. ‘‘Em março e abril, a inadimplência atinge o ápice, em decorrência das compras de Natal’’, afirma.
A média de inadimplent
es que procurou a associação para negociar seus débitos cresceu 40% neste mês. ‘‘Não há dúvida de que as pessoas correm agora para pagar ou negociar seus débitos com o objetivo de se habilitarem novamente para novas despesas.’’
O pagamento do 13º salário favorece o acerto. Só em São Paulo, na primeira quinzena de dezembro, 197.436 pessoas deram um jeito em suas dívidas e foram retiradas da lista negra do SPC. Em Salvador, 1.400 pessoas por dia procuram o serviço para quitar dívidas. O número é 40% superior ao registrado em outubro e novembro, segundo Marcos Alvarez, vice-presidente do Clube de Diretores Lojistas da Bahia. O comerciante baiano Claudio Oliveira aproveitou uma sobra de R$ 200 e resolveu dar um presente para a sua mãe. Saldou débito que ela havia contraído no Natal de 1997. ‘‘Agora, com o nome limpo, ela poderá começar o ano 2000 com crédito na praça.’’
Há dois anos, conta Oliveira, sua mãe, Dalva, ‘‘excedeu-se’’ ao ajudar a filha Maria, que não tinha cartão de crédito. Das seis parcelas de R$ 38, as duas primeiras foram pagas. ‘‘Minha irmã ficou desempregada, e minha mãe não tinha dinheiro suficiente’’, relata. No Natal de 1998, Oliveira negociou e pagou apenas mais duas prestações. Nesta semana, quando foi saldar o restante do débito, desembolsou R$ 162 (a dívida era de R$ 232, mas conseguiu da loja um desconto de 30%). ‘‘A maioria dos inadimplentes ficou sem pagar seus débitos porque perdeu o emprego ou emprestou para amigos e parentes, o que não se deve fazer nunca’’, afirma Manuela Araújo, gerente da C&A, de Salvador. O técnico em contabilidade Dalmo Rogério Silva de Souza sabe que, às vezes, dar ‘‘uma mão para um amigo’’ resulta em encrenca. Em 1994, cedeu um cheque para um colega comprar sapatos para a família. O débito não foi coberto, e Souza ficou cinco anos sem crédito na praça. Teve de fazer empréstimo para limpar seu nome. Só quitou a última parcela na semana passada.
Segundo pesquisas realizadas por entidades do comércio em São Paulo e Belo Horizonte, cerca de 43% deixaram de pagar suas contas porque perderam os postos de trabalho.

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