A suspensão da cobrança sobre compras internacionais de até US$ 50, que ficou conhecida como "taxa das blusinhas", volta a acender o sinal de alerta no setor têxtil e de confecções do Paraná. Enquanto a ponta da produção agrícola vê o cenário com neutralidade, a indústria de transformação local avalia a medida como mais um desestímulo à competitividade nacional, somando-se a gargalos como a alta carga tributária e o custo da mão de obra.

A taxação de 20% foi instituída em agosto de 2024 e vigorou até maio deste ano, quando uma MP (Medida Provisória) suspendeu a cobrança do imposto federal. No último dia 3 de setembro, a MP foi aprovada pelo Congresso Nacional e nesta quinta-feira (10), sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

As visões distintas sobre os efeitos da decisão entre quem produz a matéria-prima e quem transforma o fio em peça pronta revelam como a política tarifária afeta de formas diferentes a cadeia produtiva do Estado.

Para os produtores de algodão paranaenses, a variação na taxa de importação sobre artigos vestuários prontos não deve alterar os planos de expansão das áreas de cultivo. A avaliação é do presidente da Acopar (Associação Paranaense dos Produtores de Algodão), Almir Montecelli.

Segundo a entidade, a estimativa de plantio no Paraná deve saltar de 1,5 mil hectares na safra anterior para cerca de dois mil hectares na próxima safra. O crescimento deve ser observado, principalmente, na Região Oeste do Estado, principal polo de expansão.

O Brasil é o quarto maior produtor de algodão do mundo, mas em volume de exportação, detém a liderança no ranking, superando a marca de 2,5 milhões de toneladas comercializadas em mercados externos, principalmente os asiáticos, como China e Vietnã. Segundo Montecelli, o consumo interno nacional gira em torno de 400 mil toneladas. “(Para a cadeia produtiva) Seria melhor manter a taxação, mas vamos imaginar que cheguem a aumentar muito as vendas da China para o Brasil (com o fim da taxação). A China vai importar mais algodão nosso. Então, para o produtor que vende a matéria-prima, isso aí não deve ter uma grande influência”, analisou. “Talvez, aqui no Paraná tivesse alguma influência porque o Estado não exporta. Ele atende o mercado interno. Mas ainda assim, não vejo como um problema para o produtor.”

O presidente da Acopar ponderou que o mercado do algodão é regido por cotações internacionais e pelo apetite dos países asiáticos. Por outro lado, ele reconhece o papel social da cadeia consumidora. "A gente também preza para que a indústria nacional cresça, porque fica muito mais fácil o comércio e ela pode pagar um valor a mais. A grande prejudicada com o fim do imposto, realmente, é a indústria têxtil", completou.

Efeito dominó

Na outra ponta da cadeia, o tom é de apreensão. Representantes da indústria de confecção do Paraná apontam que a entrada de vestuários importados sem tributação federal cria uma concorrência desleal que corrói a saúde financeira das empresas locais.

Presidente do Sinditêxtil-PR (Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem no Estado do Paraná), Nelson Furman classificou a medida como mais um elemento de desgaste para o setor industrial, que já enfrenta retração histórica. Ele citou como exemplo o encolhimento de polos tradicionais do Estado, como Imbituva (Campos Gerais), que em pouco mais de uma década passou de cerca de 70 malharias para menos de dez em operação, além da redução de fabricantes em Curitiba.

Para Furman, a liberação de impostos para produtos do exterior atua como um divisor de águas negativo em um momento em que a indústria enfrenta altos custos operacionais. “É uma lástima, a gente não preservar a indústria nacional. Quando você abre um precedente desse, o impacto para a indústria têxtil é grande. Se o custo para produzir uma mercadoria lá fora é muito menor do que dentro do Brasil, isso vai desestimulando a indústria nacional e ocorre um efeito dominó, se alastrando para outras esferas”, destacou. “Produzir no Brasil, hoje, é muito caro. E aí, entra uma produção bem barata que chega com um valor muito competitivo. É muito difícil.”

No Estado, o Sindtêxtil-PR estima que ao menos 30 indústrias voltadas especificamente ao segmento de vestuário e confecção de tecidos sintéticos ou de algodão sintam o impacto direto no volume de pedidos. Furman ressaltou que o setor têxtil paranaense também tem se sustentado fortemente em nichos como a fabricação de ráfia, utilizada na confecção de embalagens para o agronegócio e construção civil, e tecidos técnicos automotivos, mas que o vestuário popular sofre diretamente a concorrência das plataformas estrangeiras.

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