Paulo Sotero
Agência Estado
APP/John MabangloPersonagensDurante a semana manifestantes roubaram a cena em Seattle. Ontem eles fizeram um ‘‘balanço vitorioso’’O presidente Bill Clinton procurou atenuar o colossal fracasso de liderança dos Estados Unidos na reunião ministerial da Organização Mundial de Comércio, que terminou na noite de sexta-feira sem sequer um comunicado final, dizendo que continuará a trabalhar pelo lançamento de uma nova rodada de liberalização do comércio global. Enquanto isso, no sábado e ontem, as ONGs, que durante toda a semana roubaram a cena do evento, comemoravam junto com os sindicatos trabalhistas. E todos os representantes de 135 países já haviam deixando a cidade.
Clinton afirmou que continua ‘‘otimista’’ e ‘‘determinado a avançar no caminho do livre comércio e do crescimento econômico, assegurando, ao mesmo tempo, que se ponha uma face humana na economia global’’.
Mas mesmo assessores fazem avaliações mais circunspectas sobre as causas e implicações do fiasco de Seattle. Para alguns deles, Clinton e a representante de comércio da Casa Branca, Charlene Barshefsky, cometeram um grave erro de cálculo quando decidiram que poderiam usar a reunião da OMC para forçar países e grupos de países com posições irreconciliáveis um consenso em torno de um menu americano para uma nova rodada de negociações comerciais, depois do fracasso de dois meses de reuniões preparatórias.
Ira Shapiro, que foi assessor jurídico de Barshefsky, não disfarçava sua perplexidade, na noite de sábado, depois do colapso da reunião. ‘‘Há uma analogia entre o que aconteceu aqui e a recente rejeição, no Senado, do tratado de proibição de testes nucleares ’, disse ele. ‘‘Nos dois casos, sabia-se de antemão que as chances de sucesso eram remotas e, mesmo assim, a administração insistiu’’, disse Shapiro. ‘‘No caso da OMC, já estava claro (antes da abertura da reunião em Seattle) que a única coisa que unia as pessoas era um sentido de queixa, de que elas estavam sendo tratadas de forma injusta pelo sistema global de comércio.’
Apresentando pela grande imprensa americana como um novo desastre da política externa do qual a atual administração dificilmente se recuperará nos 13 meses que lhe restam no poder, o colapso das negociações da OMC tem um significado especial porque se trata de uma derrota da diplomacia econômica de Clinton, o campo para o qual ele procurou reorientar a estratégia internacional dos EUA para preservar a liderança americana no pós-guerra fria. Por essa razão, vários analistas disseram que o fracasso das negociações representa também um golpe fatal nas esperanças de um presidente desacreditado por um escândalo sexual de usar o sucesso americano na economia global para redesenhar o mapa das relações internacionais.
A vitória temporária que os sindicatos e organizações cívicas obtiveram com seus protestos nas ruas de Seattle talvez não represente ‘‘um golpe de morte na OMC’’, como chegou a dizer o ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, no início da reunião, quando um acordo ainda era considerado possível.

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