Fiasco comercial
A economia brasileira poderia encerrar o ano com um desempenho até mesmo brilhante para os padrões alcançados no período 1985-2000, época de inúmeros planos, se não fosse o decepcionante desempenho da balança comercial, que, de um superávit prometido ao FMI, no final de 99, de US$ 5 bilhões, foi ao longo dos meses sendo revisto para baixo, caindo rapidamente para US$ 3 bilhões, depois para US$ 1 bilhão, até chegar ao atual superávit zero, admitido pelo governo. Na verdade, faltando ainda dois meses para acabar o tão esperado ano 2000, a balança comercial deverá fechar com um razoável déficit, já que neste período ocorrem sazonalmente as importações de artigos natalinos.
Todas as outras metas acordadas com o FMI foram alcançadas e algumas até com folga, o que nos rendeu rasgados elogios dessa instituição e do Banco Mundial. Por isso, diplomaticamente, técnicos desses dois organismos internacionais têm evitado tratar do assunto. A bem da verdade, é preciso dizer que, a rigor, a balança comercial já seria deficitária, faltando dois meses para acabar o ano, se não fosse a reexportação de alguns aviões, que eram operados pela Vasp, avaliada em pouco mais de US$ 300 milhões.
Desculpas, como sempre, não faltaram para justificar o fiasco da balança comercial: o petróleo mais caro, a queda dos preços de algumas commodities agrícolas, as dificuldades vividas pela Argentina, e a queda inesperada do euro, dentre outras. A verdade é que do governo Collor/Itamar em diante, o País foi deixando de lado o viés exportador para transformar-se paulatinamente em uma economia francamente importada.
Tal tendência agravou-se consideravelmente após o Plano Real, devido à excessiva e artificial valorização da moeda, período só encerrado, em janeiro do ano passado. Mesmo após a desvalorização do real, as vantagens do importador, que continuou a financiar suas compras lá fora, com base na média dos juros internacionais, mantiveram-se inalteradas.
Durante os governos militares, o Brasil assumiu um relativo viés exportador, o qual manteve a economia ativa nos anos que se seguiram aos dois grandes choques do petróleo e à consequente alta nos juros internacionais.
Por todas essas razões, a tarefa de recolocar o Brasil no rol dos países voltados para a exportação, como o México, os tigres asiáticos, a Comunidade Européia e até mesmo os Estados Unidos, não será nada fácil e nem acontecerá da noite para o dia.
Os brasileiros, desde o início do Plano Real, deslumbraram-se com os produtos importados e acostumaram-se a eles. É preciso, todavia, reverter tal tendência, sob pena de, em poucos anos, o País ter de enfrentar grave crise cambial, com seríssimas consequências no balanço de pagamentos, cujo déficit, por enquanto, vem sendo financiado pela entrada de investimentos estrangeiros.
Ao admitir o superávit zero, as autoridades do setor apressaram-se em anunciar, para meados de novembro, um novo pacote de medidas destinadas a tornar mais competitivas as nossas exportações.
Duas coisas deixaram esse setor com expectativas moderadamente otimistas para 2001. A primeira delas foi o fato de o presidente Fernando Henrique Cardoso ter admitido, publicamente, em sua recente viagem à Alemanha, o efeito nocivo da cobrança de tributos em cascata sobre a produção e, em particular, sobre a pauta de exportações. A Segunda foi a promessa do presidente da Camex de que os produtos destinados à exportação serão gradativamente desonerados, já a partir do próximo ano, em caráter emergencial, e independentemente das reformas fiscal e tributária.
Mas, não tenhamos ilusões, só isso não vai resolver o problema. Que tal uma política de marketing e vendas voltada exclusivamente para o mercado externo? iniciativa privada tem opções. O ministro Tápias é inteligente, sensível e oriundo da iniciativa privada.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)





